Bianca Farias ajustou o feixe de páginas marcadas com caneta rosa sob a luz do tablet, três folhas novas que ela inserira entre as originais do roteiro. Cada uma repetia, em linhas curtas e entrecortadas, o padrão de papéis familiares que o diário da estrela morta descrevera décadas antes: uma mãe que calava, uma filha que via, uma rival que protegia. Juliana Sampaio leu a primeira enquanto o técnico de som testava o microfone lapela. A frase central dizia: “Minha mãe fechou a porta para que a outra não entrasse”. Raquel Nogueira, ao lado, inclinou o queixo para a segunda folha: “A filha da outra soube e ficou quieta”. A terceira, mais curta, terminava com “Ninguém contou porque todas tinham o mesmo sangue na festa”.
O set agora era um clube noturno reconstruído em neon: luzes rosa e azul pulsavam em camadas irregulares, os feixes fragmentando-se ao atingir a pele úmida de suor em grânulos rosa e azul que se espalhavam e se recombinavam a cada respiração, enquanto o baixo penetrava o tórax em frequências precisas que deslocavam cada batida cardíaca para fora do ritmo esperado. Marcelo Duarte observou do monitor central e levantou a mão.
— Quarto take. Precisamos do movimento de dança carregado. Nada de beijo marcado. Só o contato que surge. Se os dados do simulador subirem, liberamos o episódio dois dias antes.
André Lima, encostado na parede lateral, já enviava mensagens. O polegar dele deslizava rápido pela tela. Em menos de dez minutos, o grupo de produção começou a receber capturas de tela: “Juliana inventou o romance GL para salvar a novela”. O texto se espalhava entre assistentes e figurantes. Um operador de câmera murmurou para o colega ao lado, o olhar desviado.
Juliana sentiu o peso da informação antes mesmo de ler. O produtor se aproximou dela e de Raquel.
— Ouviram? O público precisa acreditar que o que está acontecendo é real. Se não, cortamos o take e chamamos outra cena. Entenderam o que estou dizendo?
Raquel deu um passo à frente. A voz saiu baixa, entrecortada por uma pausa e um desvio de olhar para o chão iluminado.
— Então… a gente só… deixa rolar?
Marcelo não respondeu. Bateu palmas duas vezes.
— Luzes. Música. Entrada de Letícia na marca três.
Letícia Vargas apareceu no canto do set, vestindo um figurino simples de bartender. O papel era pequeno: apenas servir uma bebida e observar. Suas mãos, porém, não paravam. Os dedos se entrelaçavam e se soltavam contra o balcão de acrílico enquanto ela repetia o gesto de limpar uma mancha inexistente com o polegar, quatro vezes seguidas. A câmera B se moveu para captar o fundo. O tremor começou nos dedos, subiu até os ombros, alterou o ritmo da respiração e por fim fez o olhar dela se desenfocar sob a luz azul que piscava.
O baixo aumentou. Juliana e Raquel se posicionaram no centro da pista marcada. O coreógrafo indicou o primeiro passo: rotação lenta, ombro contra ombro, depois a mão que sobe até a nuca. Nenhuma das duas seguia exatamente a marcação. O contato surgiu quando Raquel girou e a palma dela pousou na lombar de Juliana, não no ombro como previsto. O calor da palma atravessou o tecido em ondas lentas, cada vértebra reagiu com um tremor mínimo que subia pela coluna, e as fibras do tecido opuseram resistência exata antes de cederem ao puxão sutil. Juliana respondeu girando também, o quadril acompanhando o pulso do baixo. O toque não estava no roteiro.
A visão chegou em camadas. Primeiro o estômago desceu de repente, um vazio que puxava tudo para baixo. Depois o cheiro de cigarro misturado a perfume caro invadiu as narinas em camadas distintas, um fio doce por cima de outro acre. Por fim o quadro se completou: o piso de madeira exibia rachaduras finas sob saltos altos, a lâmina refletia a luz fria do metal quando girava, e a silhueta que caía era cortada pela mão que segurava a faca — uma mão que dividia o mesmo sobrenome.
Juliana piscou. O neon voltou. O baixo continuou. Raquel mantinha a mão na lombar dela, os olhos abertos e fixos. Nenhuma das duas falou. O take continuou porque o diretor não gritou corte. O choque inicial fez Juliana tentar recuar meio passo, mas o corpo se inclinou antes da consciência, atraído pelo calor que subia pela lombar, criando uma tensão entre o impulso de afastar e a necessidade de permanecer.
Bianca recolheu as páginas rosa e as trocou por outras três, idênticas em tom. Ela as entregou diretamente para as atrizes entre uma pausa de luz, os dedos parando no mesmo ângulo exato por 0,2 segundos antes de soltar.
— Continuem. O próximo diálogo sai daqui.
Letícia ergueu o copo de água cenográfica. O tremor dela fez o líquido transbordar. O operador de câmera A hesitou, mas Marcelo gesticulou para seguir.
— Bom. O nervosismo dela funciona.
No intervalo técnico, Raquel se afastou do set e chamou André para o corredor dos bastidores. A luz ali era branca e fria, sem neon. Ela fechou a porta do depósito de figurinos.
— Você está espalhando que Juliana inventou tudo. Por quê?
André encostou-se na prateleira de perucas. O olhar dele parou por 0,5 segundo no celular de Raquel antes de desviar.
— Porque é o que o público quer ouvir.
Raquel sustentou o olhar, um riso frio curvando o canto da boca. Os dedos dele tamborilaram duas vezes na prateleira.
— Se acreditarem que é real, a audiência sobe. Se acharem que é truque, a novela cai.
Raquel não respondeu. Ela guardou o celular no bolso da calça de cena, mas o aparelho continuava gravando áudio.
De volta ao set, o quinto take começou. O baixo pulsava mais forte agora. Juliana e Raquel repetiram o giro. Desta vez o toque foi intencional: a mão de Raquel subiu até a nuca de Juliana, os dedos se enroscando nos fios soltos. O contato durou além do tempo marcado. A visão retornou, mais nítida. A estrela morta via o próprio reflexo no espelho do banheiro. Atrás dela, a porta se abria. Duas silhuetas entravam. Uma delas repetia o nome dela em voz baixa, quase cantando.
Letícia, no balcão, soltou uma respiração entrecortada enquanto ajustava o copo. Os lábios formaram sílabas repetidas de um nome que o microfone de lapela de Raquel captou apenas como fragmentos abafados.
Juliana sentiu o celular vibrar no bolso da jaqueta que usava entre takes. Ela atendeu sem olhar o nome. A garganta apertou antes mesmo de falar.
— Alô?
A voz do advogado era seca.
— Juliana, é sobre sua mãe. O testamento exige que você pare com esse roteiro. Agora.
O ar prendeu no peito dela. As unhas cravaram na palma.
— Eles vão entrar com limiar se a filmagem continuar.
A frase saiu entre respirações curtas, interrompidas por um silêncio que ela não preencheu.
O neon piscou uma última vez. O baixo parou no meio de uma batida. Marcelo gritou “corte” do monitor. Ninguém se moveu imediatamente. Raquel olhou para Juliana. Os olhos delas se encontraram no mesmo segundo em que o registro de áudio terminava de salvar.