Juliana Sampaio observou o operador de câmera reposicionar a lente enquanto Bianca Farias se aproximava da mesa de anotações com um bloco de folhas novas. O estúdio já mostrava sinais de que o dia se alongaria: cabos recolhidos em feixes maiores, garrafas de água trocadas por café mais forte. Juliana ajustou a gola da blusa, sentindo o tecido ainda úmido do calor acumulado, e caminhou até o canto onde a editora de roteiro marcava algo com caneta rosa. O fundo dos olhos latejava de ácido, herança das horas seguidas de trabalho que já vinham desde o corredor da noite anterior.
— Precisamos estender o contato visual na próxima sequência — disse Bianca sem erguer os olhos. As falas vão mudar para linhas mais baixas, quase sussurradas. Eu peguei fragmentos que encaixam com a tensão que já rolou no take anterior.
Juliana leu por cima do ombro. As frases novas não estavam no roteiro original: “Você viu o que eu vi no corredor, não viu?” e “Ela ficou ali, quieta, enquanto o resto desmoronava”. O tom era de confidência forçada, quase íntima demais para o que a cena pedia originalmente.
— Isso não estava combinado — respondeu Juliana, mantendo a voz neutra. — Minha intenção é investigar o que apareceu ali sem parar o fluxo da gravação.
Bianca virou duas páginas em sequência rápida, a caneta rosa batendo duas vezes na margem com a ponta seca. Juliana sentiu a garganta subir e descer uma vez, os dedos indicadores se contraírem contra a coxa.
Raquel Nogueira verificava o celular em silêncio, polegar pressionando a articulação do indicador. Ela guardou o aparelho no bolso da legging e se aproximou, o olhar fixo em Juliana por um segundo a mais do que o necessário.
— Vamos ver até onde isso vai — murmurou Raquel, quase para si mesma.
Marcelo Duarte bateu palmas uma vez.
— Quarto. Luz baixa. Câmera mais próxima. Take extra.
O assistente de produção indicou o caminho. Juliana caminhou à frente, unha do polegar riscando a linha da palma esquerda em ritmo constante. Raquel parou três vezes no trajeto, tela do celular erguida buscando sinal. Do teto, o técnico de iluminação soltou um suporte metálico que ressoou contra outro com som seco e repetido.
O estúdio secundário tinha sido preparado com luzes âmbar baixas que projetavam sombras longas nas paredes. A cama ocupava o centro, lençóis de cetim creme já arrumados com vincos sutis que imitavam uso recente. O ar ali era mais parado. Juliana posicionou-se primeiro, sentando na borda. O tecido frio tocou a pele das coxas por baixo da roupa de cena; cada milímetro de deslocamento gerava uma faísca estática quase inaudível e uma diferença de temperatura que subia do algodão para a epiderme em ondas curtas. O amargor do café anterior ainda grudava na raiz da língua. Do duto do ar-condicionado vinha um silvo baixo misturado ao roçar do cetim. O talco de maquiagem, ao receber o calor crescente dos refletores, soltava um dulçor pastoso que se sobrepunha ao cheiro inicial de tecido limpo.
Raquel entrou em seguida, ajustando a postura para o ângulo marcado. O polegar dela pressionou novamente a articulação do indicador. O operador ligou a câmera B.
Bianca entregou as páginas revisadas diretamente às atrizes.
— Olhem uma para a outra por oito segundos antes da primeira fala. Depois sussurrem as linhas novas. Sem desviar.
Marcelo confirmou do monitor:
— Começa.
Juliana fixou o olhar em Raquel. O primeiro contato visual trouxe de volta o corredor do final do capítulo anterior: Letícia encostada na parede exatamente como estivera então, mãos entrelaçadas, e o coração de Juliana marcando o mesmo valor acelerado que registrara naquela hora. A respiração dela começou regular, passou a superficial e rápida, depois parou por completo.
O suor começou a se formar na nuca de Juliana, descendo devagar pela coluna. Uma gota alongada refratou, por um instante, a pupila escura de Raquel invertida na luz âmbar; a visão de Juliana perdeu o foco por meio segundo. A mão de Juliana descansou sobre o lençol; a fricção gerou outra camada de estática sutil e uma corrente térmica que subia do tecido para a palma.
Raquel respondeu com a linha sussurrada:
— Você viu o que eu vi no corredor, não viu?
Outro take foi pedido. Entre as repetições, a luz principal piscou por meio segundo. Durante a terceira, a visão se formou em camadas: primeiro a nuca de Juliana esfriou como se alguém soprasse ali; depois o estômago contraiu em espasmo curto; só então a imagem completa invadiu — Letícia Vargas mais jovem, encostada na parede, mãos entrelaçadas exatamente como agora, observando uma porta que se abria e fechava em silêncio. O tremor nas mãos de Letícia no presente repetia aquele gesto antigo contra a alvenaria.
Raquel interrompeu o take. Ela se afastou da marcação, segurando o braço de Juliana.
— Vamos lá fora um minuto.
No corredor lateral, longe dos microfones, Raquel tirou o celular do bolso, abriu um diretório criptografado e deletou um único documento de texto. Juliana sentiu a ponta dos dedos endurecer de repente, como se o ar tivesse baixado cinco graus. A tela confirmou a exclusão. No verso da lembrança que a palavra “festa” evocava, duas perguntas ficaram sem resposta: de que ano exatamente, e quem fora cortado da silhueta.
— Por quê agora? — perguntou Juliana.
Raquel guardou o aparelho.
— Porque a visão não é só sua.
Juliana sentiu, por um segundo, a confiança inicial que depositara em Raquel no final do capítulo anterior rachar como vidro fino.
Enquanto isso, no set principal, Letícia Vargas permaneceu nas sombras; o tremor nas mãos se tornou mais evidente quando ela ergueu o copo de água, repetindo o entrelaçar de dedos contra a parede de décadas atrás.
Marcelo notou de relance.
— Mais um. Agora.
Juliana e Raquel voltaram ao set do quarto. O próximo take seguiu com as linhas sussurradas, mas o ritmo mudou sutilmente. O suor nas costas de Juliana escorria mais rápido agora, o lençol sob os corpos acumulando calor onde os tecidos se tocavam. O contato visual se estendeu além do marcado.
Após o “corte”, Bianca recolheu as páginas rosa e as guardou em uma pasta separada.
Às duas da manhã, o set principal já estava quase vazio. Juliana caminhou até seu trailer. Sobre a bancada de maquiagem havia um envelope fino sem identificação. Dentro, uma fotografia rasgada dos anos 1990: a estrela morta aparecia de perfil, ao lado de uma silhueta parcialmente cortada. No verso, em letra miúda com marcador rosa, uma única frase: “Ela sabia demais sobre a festa”.
O tremor começou na polpa dos dedos e subiu até o centro do peito. Um gosto metálico se formou na garganta. “Esta cara… eu vi ontem à noite no corredor.” “Quem cortaram dela?” O estômago virou uma vez; a garganta apertou. Juliana guardou a foto no bolso interno da jaqueta. O trailer ficou em silêncio, apenas o zumbido distante do ar-condicionado preenchendo o espaço.