Juliana Sampaio empurrou a porta pesada do estúdio no Rio às cinco e quarenta da manhã. A umidade subia das frestas dos azulejos em ondas de calor úmido, colidindo com o ar frio do ar-condicionado e condensando em névoa fina que se aderiu às capas dos cabos, liberando um cheiro acre de plástico aquecido misturado a maquiagem e café fresco que invadiu suas narinas. Ela usava jeans escuro e uma blusa de linho branco que já grudava nas costas. Na mão direita, o roteiro marcado com caneta preta; na esquerda, o café duplo sem açúcar que comprara no carrinho da esquina. Os refletores cortavam a luz em colunas douradas de bordas afiadas sobre o sofá cenográfico que representava o quarto da telenovela; o braço do sofá, na borda da luz, exibia sombras aveludadas que tremiam como respiração.
Ela parou no meio do caminho e respirou fundo. A cláusula GL que conseguira inserir no contrato estava ali, nas páginas 47 e 48: o beijo entre as duas protagonistas seria filmado com dignidade, sem exploração, e serviria como pivô da redenção de sua personagem. Juliana pretendia controlar aquela narrativa. Nada de olhares lascivos para a câmera, nada de gemidos fabricados. Só o que fosse necessário para que o público visse duas mulheres adultas se escolhendo em meio ao caos da trama.
Passos ecoaram no corredor lateral. Raquel Nogueira apareceu usando calça legging preta e regata cinza, o cabelo preso em um coque frouxo. Ela carregava uma pasta fina de couro marrom que não combinava com o figurino de ensaio. Seus olhos encontraram os de Juliana por um segundo antes de desviarem para o monitor vazio à esquerda do set. Raquel sorriu de lado, aquele sorriso que as revistas chamavam de “enigmático”.
— Chegou cedo. Sonhando com o combinado, ou temendo?
Juliana deu um passo à frente, mantendo a distância profissional, e ajustou o peso do roteiro entre os dedos sem responder.
Do outro lado do estúdio, Marcelo Duarte já estava sentado na cadeira de diretor, fones pendurados no pescoço, tablet na mão. Ele gesticulava para o operador de câmera enquanto conversava em tom baixo.
— O close no beijo vai render no monitor? — perguntou ao operador, que ajustava a altura da câmera. — Dois pontos de audiência se o público ficar até o final da cena. Podemos chegar a quinze por cento de share. Três takes mínimos, mas se o segundo explodir nas redes, liberamos o extended cut. — O operador assentiu, e Marcelo continuou, quase como quem comenta o tempo: — Se vazar o boato certo sobre a Letícia, a curiosidade sobe antes mesmo do ar.
Bianca Farias, a editora de roteiro, aproximou-se da mesa de anotações com um maço de páginas rosa-claras. Ela deslizou uma delas entre as folhas revisadas do roteiro sem chamar atenção, deixando o fragmento marcado com caneta rosa fluorescente exatamente onde Juliana iria apoiar a mão durante o ensaio, e, ao soltar a folha, tocou levemente três vezes com o indicador e o médio juntos. Bianca não olhou para ninguém; apenas ajustou os óculos e voltou para o canto onde ficava sua mesa.
André Lima, o publicista da emissora, circulava com o celular na mão, falando baixo ao ouvido de um assistente de produção. O assistente empalideceu visivelmente, os ombros enrijecendo, enquanto André tamborilava o polegar na tela do telefone sem parar.
Letícia Vargas observava tudo das sombras laterais, mãos entrelaçadas na frente do corpo, os dedos tremendo levemente. Ela levou a mão ao pulso esquerdo, onde nos anos noventa houvera uma cicatriz escondida por pulseira. Inspirou fundo tentando controlar a respiração, mas o ar saiu trêmulo. A veterana usava um casaco leve apesar do calor que começava a subir. Seus olhos não saíam das duas atrizes.
O ensaiador chamou as posições. Juliana e Raquel caminharam até o sofá cenográfico. O calor dos holofotes já fazia a pele formigar. O operador ajustou a câmera A para um plano médio que capturaria o momento em que as duas se aproximassem. Juliana sentiu primeiro a vigilância profissional — os olhos de todos sobre as posições marcadas —, depois o desconforto físico do calor que subia pelo pescoço e grudava a blusa nas costas; por fim, uma tontura suave invadiu quando fragmentos de memória começaram a atravessar a concentração como ondas sucessivas.
— Vamos do beijo marcado — disse o ensaiador. — Sem pressão. Só o texto e o contato.
Juliana posicionou-se à esquerda do sofá. Raquel à direita. O ar entre elas parecia mais denso, carregado de umidade do Rio que o ar-condicionado não conseguia remover completamente. Elas começaram a falar as falas do ensaio. As vozes soavam naturais, quase íntimas.
— Você sempre chega na hora errada — disse Juliana, seguindo o roteiro.
Raquel deu o passo combinado, os olhos fixos nos de Juliana por um instante a mais.
— Ou na hora certa — respondeu, a voz quase baixa demais para o microfone.
Quando as mãos de Juliana tocaram a cintura de Raquel, o contato durou um segundo a mais do que o ensaiado. Os dedos de Juliana sentiram as fibras de algodão do tecido levemente coladas pelo suor, cada respiração fazendo aquela fina membrana produzir micro atritos que subiam como corrente pelos nervos. Raquel inspirou mais fundo, os olhos fixos nos de Juliana. O ar-condicionado zumbia, mas o calor dos refletores criava ondas visíveis no ar.
De repente, ambas congelaram.
Um flash cortou a visão de Juliana: a luz neon rosa se estilhaçando no chão molhado em milhares de fragmentos, o cheiro de sangue misturado a perfume barato subindo direto às narinas, ao mesmo tempo em que o eco dos saltos altos batendo no chão vibrava dentro dos tímpanos. O mesmo som pareceu atravessar Raquel no mesmo instante — ela piscou rápido, os lábios entreabertos, a respiração presa. Nenhuma das duas disse nada. O grito não era do roteiro. Era algo mais antigo, compartilhado, como se as duas tivessem visto o mesmo fragmento de uma noite que não viveram.
Juliana cerrou os dentes e tentou retomar a fala seguinte. Raquel cravou as unhas na palma da própria mão.
O ensaiador bateu palmas.
— Bom! Vamos filmar.
A câmera rolou. Marcelo observava o monitor, contando em voz baixa os segundos de tensão.
— Isso. Dois pontos agora. Três se o close pegar o tremor.
Bianca ajustou mais uma página rosa no roteiro que estava nas mãos de Juliana, deixando-a visível. O fragmento de diário dizia, em letra miúda: “Ela sabia demais sobre a festa. Ninguém mais viu o que eu vi.”
André enviou uma mensagem rápida para um jornalista de fofoca, testando a lealdade do assistente ao lado dele.
Letícia, nas sombras, apertou as mãos com mais força. Os tremores aumentaram.
Durante o take, o beijo aconteceu conforme marcado — lábios se tocando com suavidade, respiração compartilhada, sem exagero. Mas a mão de Juliana permaneceu na cintura de Raquel por mais tempo que o combinado. O calor subiu. O flash retornou, mais forte: o grito, uma porta batendo, uma silhueta caindo. Ambas sentiram o mesmo corte na memória alheia.
O diretor gritou “corte!” quando o take terminou.
Marcelo olhou para o monitor e sorriu.
— Spike de audiência na simulação. Subimos.
No mesmo instante, o celular de André vibrou. Uma mensagem anônima apareceu na tela:
“A filmagem da estrela morta ainda existe. Não deixem que elas terminem o ensaio.”
Juliana e Raquel permaneceram paradas, olhos fixos uma na outra, o ar ainda carregado. A garganta de Juliana apertou; o coração batia no mesmo ritmo do zumbido da lente da câmera, enquanto o gosto do grito de 1990 se dissipava em ondas cada vez mais fracas. Nenhuma delas se moveu quando o assistente anunciou o próximo ângulo.