Entraram em Oasis por uma conduta antiga, tão estreita que Marta teve de avançar de lado, raspando os ombros no cimento húmido. Húmido. A palavra quase a fez chorar. Havia água ali, escondida sob um país inteiro a definhar.
Do outro lado, a conduta desembocava numa galeria iluminada por lâmpadas verdes. Oasis não era uma cidade. Era um ventre. Corredores circulares, tanques transparentes, dormitórios sem janelas, jardins subterrâneos onde plantas demasiado viçosas cresciam sob luz artificial.
No centro, erguia-se o Poço-Mãe: uma abertura colossal no chão, cercada por cabos, sensores e plataformas. Lá em baixo, no escuro, ouvia-se água correr.
— Um aquífero fóssil — murmurou Lídia. — Milhares de anos preso na rocha. Devia ser reserva sagrada. Transformaram-no em motor.
— Motor para quê?
— Para fabricar chuva dirigida. Vender nuvens a concelhos, a países, a quem pagar. Mas o aquífero não responde a máquinas. Responde a eles.
“Eles” estavam no refeitório: cerca de quarenta crianças e adolescentes sentados em silêncio, cada um com uma pulseira cinzenta no pulso. Marta procurou Tomé em todos os rostos e não o encontrou.
Até ouvir um assobio baixo. A melodia que ele inventara em pequeno para chamar os pardais à varanda.
Virou-se.
Um rapaz de dezassete anos estava junto à porta de serviço, com o uniforme branco dos internos e uma cicatriz fina na sobrancelha. Não era a criança da fotografia que Marta trazia na carteira. Era mais alto, mais duro, com olhos de alguém que envelhecera sem pedir licença.
— Demoraste — disse ele.
Marta não conseguiu responder. Abraçou-o com tanta força que ele soltou um som entre riso e dor.
— Pensei que tinhas morrido.
— Também tentei — disse Tomé. — Não me deixaram.
O reencontro durou segundos. Alarmes acenderam-se no corredor. Luz vermelha. Portas a fechar.
Lídia praguejou.
— Seguiram o sinal do telefone.
Tomé olhou para a mochila de Marta.
— Trouxeste-o?
Ela mostrou o telefone antigo.
— A sétima mensagem está bloqueada. Qual é o código?
Tomé empalideceu.
— Não devias ouvi-la aqui.
— Depois de cinco anos, não me digas o que devo ou não devo ouvir.
Ele aproximou-se e digitou quatro números: 0000.
Marta ficou a olhar.
— Estás a gozar comigo?
— Era a única combinação que nunca usarias. Sempre disseste que eu era preguiçoso.
A mensagem começou.
A voz era de Tomé, mas mais fraca, gravada às pressas.
— Marta, se ouves isto, é porque cheguei ao limite. Oasis não quer só controlar a chuva. Quer apagar a memória da seca. A água guarda tudo: nomes dos mortos, crimes, pactos, lugares onde desviaram rios. Se me ligarem ao Poço-Mãe, conseguem filtrar essas memórias. O país vai beber esquecimento.
Marta sentiu o sangue gelar.
— Há outra coisa — continuava a gravação. — Eu posso fazer o contrário. Posso devolver tudo de uma vez. Mas se o fizer sozinho, o poço leva-me. Preciso de uma âncora. Alguém que se lembre de mim antes de Oasis.
A mensagem terminou.
Os altifalantes crepitaram.
— Tomé Vale, entregue-se no átrio de extracção. A sua irmã poderá sair ilesa.
A voz era a mesma da sexta mensagem. Calma. Sem idade.
Tomé fechou os olhos.
— Directora Salomé.
— Ela vai matar-te? — perguntou Marta.
— Não. Vai usar-me. É pior.
Do corredor surgiu Ícaro, ofegante, com duas crianças atrás.
— Abriram o Poço — disse ele. — Vão começar agora.
E então a menina das gotas suspensas caiu no chão, a sangrar do nariz, enquanto no tecto se formavam nuvens negras dentro da terra.