Vale de Cobre era uma estação sem carris, perdida entre montes rachados e túneis ferroviários que ninguém assumia ter construído. No passado, passavam por ali comboios de minério; agora, passavam camiões sem matrícula e autocarros de vidros escurecidos, sempre de madrugada.
Marta chegou ao terceiro dia, com os lábios gretados e a cabeça cheia de vozes. Tinha ouvido as mensagens dezenas de vezes. A sétima continuava bloqueada. O telefone pedia um código de quatro dígitos.
Tentara o aniversário de Tomé. O dela. O dia da morte dos pais. Nada.
Na antiga bilheteira encontrou uma mulher a pintar andorinhas na parede com carvão. Devia ter cinquenta anos, talvez setenta. Tinha o cabelo branco preso com uma mola azul e um olhar de quem aprendera a sobreviver não esperando nada de ninguém.
— Procuro a mulher das andorinhas — disse Marta.
A mulher desenhou mais uma asa antes de responder.
— Então encontrou uma parva que deixou demasiadas pistas.
Chamava-se Lídia Falcão. Fora engenheira hidráulica antes de a palavra “água” se tornar assunto de segurança nacional. Construíra parte da rede subterrânea que alimentava Oasis, um complexo experimental anunciado como cidade-laboratório para refugiados climáticos.
— Mentira bonita — disse Lídia, enquanto guiava Marta por uma passagem sob a plataforma. — Oasis não acolhe refugiados. Recolhe anomalias.
— Crianças.
— Crianças que ouvem aquíferos, que chamam nevoeiro, que conseguem purificar água com febre. O Estado encontrou nelas uma alternativa às barragens. As empresas encontraram uma mina.
Marta apertou a mochila contra o peito.
— O meu irmão está lá há cinco anos.
Lídia parou.
— Tomé Vale é o rapaz do eco?
— Que eco?
— Há miúdos que puxam água. O seu irmão puxa memórias. Toca numa poça e ouve quem chorou nela, quem a atravessou, quem morreu com sede. Para os cientistas, ele é uma chave. Para os outros miúdos, é um santo. Para a direcção de Oasis, é um problema.
Marta sentiu uma raiva tão limpa que quase lhe pareceu sede.
— Leve-me até ele.
Lídia riu, mas sem alegria.
— Entrar é difícil. Sair com alguém é suicídio.
Um ruído interrompeu-as: motores no túnel.
Lídia apagou a lanterna.
Pela fenda de uma porta metálica, Marta viu três carrinhas aproximarem-se. Guardas com máscaras de filtro desceram, conduzindo um grupo de crianças descalças. Algumas traziam pulseiras de contenção. Uma menina, talvez de oito anos, deixava no ar pequenas gotas suspensas como contas de rosário.
Atrás delas vinha um rapaz magro, de cabelo escuro e olhos enormes. Ícaro. O nome da mensagem.
Um guarda empurrou-o. A criança tropeçou, bateu com as mãos no chão seco e, nesse instante, uma veia de água rebentou entre as pedras.
Todos recuaram.
Marta deu um passo em frente, instintivo.
Lídia agarrou-a.
— Se se mostra agora, morrem todos.
Mas Ícaro levantou a cabeça na direcção delas, como se tivesse ouvido a respiração de Marta através do betão.
E sorriu.
Não era alívio. Era aviso.
A água que brotara no chão começou a formar letras.
FUJAM.