A cripta da capela escondia uma entrada antiga para as condutas romanas, alargadas clandestinamente até Almarim. Marta, Duarte e Noé avançaram por túneis estreitos enquanto, atrás deles, os passos dos homens de Helena ecoavam como martelos.
Marta ouviu então um som que a desarmou por completo: a respiração irregular de Tiago. O irmão. O verdadeiro. Vinha de uma galeria lateral.
— Marta…
Ele nunca falava. Não desde o acidente de infância que o deixara preso a frases quebradas e gestos repetidos. Ela parou, com lágrimas nos olhos.
Duarte agarrou-lhe o braço.
— A mensagem disse para não olhares.
— É o meu irmão.
— Ou querem que penses isso.
A voz voltou, mais nítida:
— Martinha, ajuda-me.
Noé tapou os ouvidos.
— Não é ele. É a água presa nos altifalantes. Eles fazem-na decorar vozes.
Marta sentiu a culpa antiga abrir-se como uma ferida. Quando eram pequenos, fora ela quem deixara Tiago sozinho junto ao rio para seguir Inês numa aventura. Tiago caíra, batera com a cabeça, e nunca mais voltara a ser inteiro. Inês carregara a rebeldia; Marta, a responsabilidade. Ambas se tinham odiado em silêncio por isso.
Mas desta vez Marta não se virou.
Correram até chegar a uma comporta circular. Noé pousou a palma no metal. O ferro suou água. A porta abriu-se com um gemido.
Almarim surgiu diante deles.
Não era uma simples estação. Era uma cidade subterrânea de vidro e luz azul, construída à volta de um lago imenso, impossível, tão claro que parecia conter céu. Torres transparentes pendiam do tecto rochoso; passadiços atravessavam canais; turbinas sugavam a água para tubos que desapareciam em direcção às cidades secas da superfície. Mas havia zonas inteiras abandonadas, cobertas por sal e algas negras.
No centro do lago erguia-se uma estrutura circular: o Núcleo. Dentro dela, ligada a cabos, estava uma mulher.
Inês.
Viva.
Marta gritou o nome dela, mas o som bateu no vidro. Inês abriu os olhos devagar. Estava pálida, com cicatrizes nos braços e eléctrodos presos às têmporas. Ao seu lado, numa cadeira adaptada, encontrava-se Tiago, o verdadeiro, imóvel, mas vivo. Os seus dedos mexiam-se sobre um teclado ocular, compondo frases que apareciam num ecrã:
MARTA, NÃO FIZEMOS ISTO PARA TE MAGOAR.
Helena Sotto apareceu atrás deles, sem pressa. Os guardas apontaram armas.
— Comovente, não é? — disse a ministra. — A família reunida no ventre do país.
Marta avançou, furiosa.
— O que lhes fez?
— Salvei-os. A sua irmã descobriu que certos cérebros, quando expostos à nascente fóssil, comunicavam com o fluxo. O seu irmão, devido à lesão, era especialmente sensível. A criança amplificou tudo. Juntos, permitiram-nos distribuir água a milhões.
— Distribuir? — Duarte riu, amargo. — Vendê-la. Controlá-la. Decidir quem bebe e quem se cala.
Helena não negou.
— A escassez precisa de ordem. Sem nós, haveria guerra.
Noé deu um passo à frente. O lago inteiro estremeceu.
— A nascente quer subir.
Helena olhou para ele, pela primeira vez assustada.
— A nascente não quer. A nascente é recurso.
O ecrã de Tiago piscou:
MENTIRA. ELA É MEMÓRIA.
Então Inês conseguiu falar através dos altifalantes, com a voz fraca mas inteira:
— Marta, perdoa-me depois. Agora parte o vidro.