A coordenada levava a uma aldeia abandonada chamada Salgueiro Velho, engolida pela poeira a sul de Santarém. Antes das secas longas, havia ali vinhas, hortas e uma ribeira onde Inês e Marta molhavam os pés nas férias. Agora restavam fachadas rachadas, antenas partidas e o esqueleto de uma capela sem sino.
Marta chegou ao entardecer, num jipe emprestado por Duarte Vale, antigo jornalista que fora despedido por insistir em escrever sobre Almarim. Duarte não acreditava em milagres, mas acreditava em encobrimentos. E, sobretudo, acreditava que a morte de Inês fora conveniente demais.
— A tua irmã descobriu alguma coisa — disse ele, enquanto atravessavam a rua principal da aldeia. — Uma estação subterrânea não colapsa sem deixar vítimas identificáveis, registos, imagens. Em Almarim, desapareceram pessoas e arquivos.
— E agora aparecem mensagens de voz de uma morta.
— Ou de alguém que sabe imitar mortos.
Marta quis responder, mas ouviu uma pancada vinda do poço seco junto à capela. Duarte apontou a lanterna. No fundo, sentado entre pedras e raízes, estava um rapaz de uns dez anos, magro, com cabelo escuro colado à testa, como se tivesse acabado de sair da água.
— Tiago? — murmurou Marta.
Não era o irmão dela. Tiago tinha vinte e dois anos, embora a doença rara lhe roubasse a fala e parte dos movimentos. Aquele rapaz levantou a cabeça e fixou-a com olhos de um verde quase translúcido.
— A Inês disse que vinhas — afirmou.
Duarte desceu primeiro, desconfiado. O rapaz não parecia ferido. Ao contrário: a terra em redor dos seus pés estava húmida. Húmida, num poço morto havia quinze anos.
— Quem és tu? — perguntou Marta.
— Chamaram-me Noé. Mas ela dizia que nomes dados por laboratórios não contam.
Marta sentiu o estômago fechar-se. Noé tinha uma pulseira médica presa ao pulso, com o símbolo da Fundação Arca Azul, proprietária de Almarim e principal fornecedora de água dessalinizada do país. Abaixo do símbolo, uma inscrição: PROJECTO LÁZARO.
Duarte praguejou baixinho.
— Isto é maior do que pensávamos.
Noé tocou na parede do poço. Uma gota nasceu da pedra, inchou, caiu. Depois outra. E outra. Em segundos, um fio de água escorreu pelo musgo antigo.
— Eles puseram-me a ouvir a nascente — disse o rapaz. — Queriam que eu a mandasse obedecer. Mas ela só fala com quem perdeu alguém.
Antes que Marta conseguisse perguntar mais, motores surgiram na estrada. Três viaturas negras pararam diante da capela. Homens armados saíram, acompanhados por uma mulher elegante, de cabelo branco curto e sorriso calmo.
Helena Sotto, ministra da Resiliência Hídrica. O rosto que aparecia todos os dias nos ecrãs a pedir sacrifícios ao povo.
— Marta Lousã — chamou ela, sem levantar a voz. — Afaste-se da criança. Ele pertence ao Estado.
Noé agarrou a mão de Marta com força.
— Não deixes que me levem outra vez. Quando choro, cidades inteiras ficam sem sede. Quando tenho medo, alguém se afoga.
A frase ficou suspensa entre eles como uma sentença.
Depois, do telemóvel de Marta, que estava sem rede, surgiu uma nova mensagem de voz.
A voz de Inês:
— Corre para baixo da capela. E não olhes para trás quando ouvires o Tiago.