Marta Lousã tinha aprendido a desconfiar de tudo o que chegava tarde: relatórios oficiais, pedidos de desculpa, chuvas fora de época. Mas nunca imaginou que também teria de desconfiar da voz da irmã.
Eram 03h17 quando o telemóvel vibrou em cima da bancada da cozinha. Lá fora, Lisboa dormia sob uma névoa amarela de poeira, e as sirenes dos camiões-cisterna cortavam a madrugada como animais cansados. A mensagem de voz vinha de um número sem identificação.
Marta ouviu-a de pé, ainda com as mãos húmidas de lavar um copo.
— Martinha… se estás a ouvir isto, não acredites no que disseram sobre mim. Eu não fugi. O Tiago também não. A nascente… está viva.
A chávena caiu ao chão.
A voz era de Inês. A irmã desaparecida havia nove meses, oficialmente dada como morta após o colapso da Estação Subterrânea de Almarim, uma cidade-oásis privada construída no antigo aquífero do Ribatejo. No funeral sem corpo, Marta não chorara. Ficara sentada, rígida, a ouvir a mãe repetir que Inês era imprudente desde criança. Agora, aquela imprudência falava do outro lado do tempo.
A mensagem continuou com ruído de água a correr, impossível numa cidade onde cada litro era contado.
— Se vierem ter contigo, diz que não sabes do menino. Ele não é uma arma. É a chave. E, Marta… desculpa por te ter deixado com a culpa.
A chamada terminou com um estalo metálico e uma frase sussurrada por uma voz infantil:
— A água lembra-se de quem a vendeu.
Marta repetiu a mensagem dez vezes. À décima primeira, o ficheiro desapareceu do telemóvel. No seu lugar surgiu apenas uma coordenada e uma palavra: SALGUEIRO.
Duas horas depois, dois homens de fato cinzento bateram-lhe à porta. Identificaram-se como técnicos da Autoridade Nacional da Água, mas um deles usava botas de combate e o outro tinha uma cicatriz fresca na orelha. Perguntaram por Tiago, o irmão mais novo de Marta e Inês, que todos julgavam internado numa clínica neurológica do Porto.
— O Tiago está seguro — respondeu Marta, mentindo sem saber porquê.
O homem da cicatriz sorriu.
— Ninguém está seguro quando começa a ouvir mortos.
Nesse momento, Marta percebeu que a mensagem não era uma assombração. Era uma armadilha. Ou um pedido de socorro.
E, pela primeira vez em nove meses, decidiu procurar a irmã como se ela ainda pudesse estar viva.