As crianças não atacaram. Abriram caminho.
Inês quis acreditar que eram alucinações, projecções, qualquer tecnologia cara da Aurora Hídrica. Mas quando uma rapariga pequena passou por ela, deixou no ar um cheiro intenso a musgo e campanário húmido, o cheiro das fotografias antigas da avó depois de uma cheia.
Abel ergueu as mãos.
— Eu não a traí — disse, como se respondesse à mensagem. — Juro pela minha filha.
— Então porque é que ela disse aquilo? — perguntou Inês.
— Porque alguém está a usar a voz dela.
A frase entrou-lhe no peito como uma lâmina. Inês trabalhava com som. Sabia o que se podia falsificar. Sabia que uma voz, com amostras suficientes, podia ser dobrada, torturada, posta a dizer qualquer coisa. Também sabia que havia coisas nas mensagens que nenhuma máquina devia conhecer: as três batidas de infância, o assobio que Mara fazia quando tinha medo, a alcunha que só usara uma vez para Tomás.
Chegaram a uma vedação cortada. Abel conhecia o buraco. Isso não provava inocência, mas provava utilidade. Entraram.
Dentro do perímetro, o mundo mudava de cor. Havia laranjeiras carregadas, canais de água clara, relva aparada, casas brancas com piscinas onde ninguém nadava. Ao fundo, um edifício circular de betão e vidro erguia-se sobre a antiga aldeia submersa. No letreiro lia-se: CENTRO DE REGENERAÇÃO AURORA — Unidade Santa Clarinda.
Tomás apontou para uma torre baixa.
— Levaram-na para ali.
— Quem?
— A Mara. E os meninos.
Foram interrompidos por um altifalante.
— Inês Valado, agradecemos que não assuste o menor. A sua irmã sofreu um acidente. Podemos dar-lhe respostas.
A voz era da mulher do distintivo, calma como uma consulta médica.
Projectores acenderam-se. Guardas cercaram-nos. Abel tentou pôr-se à frente de Tomás, mas caiu com um disparo eléctrico. Inês segurou o gravador como se fosse uma arma.
A mulher aproximou-se. Chamava-se Helena Sarmento, explicou, directora de segurança hídrica. Tinha um rosto sem idade e sapatos limpos no meio da poeira.
— A Mara descobriu algo que não compreendia — disse Helena. — Santa Clarinda não morreu. Adaptou-se.
Helena conduziu-os, sem escolha, ao edifício circular. Lá dentro, por baixo de pisos de laboratório, havia uma cratera revestida de pedra antiga. No fundo, uma água escura respirava. À volta do poço, cabos, microfones, sensores, servidores. E, em cápsulas transparentes, crianças adormecidas com os lábios azuis.
— O Poço Azul é um sistema biológico raríssimo — explicou Helena. — Uma rede subterrânea capaz de purificar água contaminada. Algumas crianças da aldeia desenvolveram uma simbiose com ele. O Estado chamou-lhe risco. Nós chamámos-lhe salvação.
— Chamaram-lhe propriedade — disse Inês.
Tomás soltou um grito. Numa cápsula, ligada a fios e auscultadores, estava Mara. Magra, pálida, viva.
Inês correu para ela, mas Helena segurou-a pelo braço.
— A sua irmã tentou libertar as crianças. Caiu no poço. A rede manteve-a viva, mas fragmentada. A voz dela surge nos sistemas. Nas gravações. Nas condutas. Não sabemos se é consciência ou eco.
O gravador de Inês ligou-se sozinho.
A voz de Mara saiu limpa, sem estática:
— Mana, agora.
Tomás abriu a cassete.
Lá dentro não havia fita magnética. Havia uma chave antiga, azulada, coberta por uma película húmida.