Fugiram pela escada de serviço, descendo entre sacos de lixo e canos que pingavam uma água amarelada, preciosa demais para ser desperdiçada. A mulher do distintivo não correu. Isso assustou Inês mais do que uma perseguição. Quem não corre é porque sabe que a estrada termina onde quer.
Tomás conduziu-a até uma carrinha branca, estacionada em segunda fila, com uma frase pintada de lado: “Reparações de Humidade — Orçamentos Grátis”. Ao volante estava um homem largo, barba grisalha, mãos de pedreiro.
— Sou o Abel — disse ele. — Era o motorista da tua irmã.
— A minha irmã não tinha motorista.
— Tinha quando começou a incomodar pessoas com helicópteros.
A carrinha arrancou antes de Inês fechar a porta. Tomás encolheu-se no banco de trás com a cassete no colo. Não a largava. Inês quis arrancar-lha das mãos, exigir respostas, mas o miúdo tremia como se guardasse uma bomba viva.
Pela janela, a cidade ficou para trás: filas de gente junto a cisternas, cartazes eleitorais prometendo “Água Justa, Ordem Segura”, drones a patrulhar reservatórios urbanos. Depois veio a auto-estrada vazia, o asfalto a reflectir a lua, e mais tarde as planícies secas onde as oliveiras pareciam esqueletos alinhados.
Abel explicou o pouco que sabia. Mara investigava uma empresa chamada Aurora Hídrica, que comprara terrenos abandonados no interior e os transformara em “oásis privados”: complexos fechados com lagos artificiais, hortas verdes e clínicas para milionários estrangeiros fugidos ao colapso climático. Oficialmente, a água vinha de dessalinizadoras e reciclagem. Oficiosamente, Mara descobrira condutas antigas ligadas a aquíferos protegidos e a aldeias evacuadas.
— Santa Clarinda não aparece nos mapas novos — disse Abel. — Apagaram-na depois da barragem rachar. Mas havia lá gente. Havia uma escola, uma capela, um poço que nunca secava.
Tomás murmurou:
— O Poço Azul.
Inês olhou para ele.
— Disseste que viste tudo.
O rapaz apertou a cassete.
— Vi a Mara entrar no complexo. Vi a senhora do distintivo com um homem que não saía nas notícias. Vi-os discutir. Depois ouvi a voz da Mara pelo rádio do carro, mas ela já não estava lá.
— Como assim?
Tomás engoliu em seco.
— A voz vinha debaixo da terra.
A carrinha abanou quando saiu da estrada principal para um caminho de terra batida. Ao longe, uma linha de luz cortava a noite: cercas eléctricas, torres de vigilância, estufas iluminadas. No meio da secura, havia verde. Verde impossível. Verde obsceno.
Abel desligou os faróis.
— A partir daqui vamos a pé.
Mas antes que alguém abrisse a porta, o rádio da carrinha acendeu sozinho. Estática. Três batidas ocas. Um assobio curto.
A voz de Mara encheu o habitáculo.
— Inês, não confies no Abel.
O homem ficou pálido.
No vidro da frente, reflectidas pela lua, apareceram figuras imóveis junto às oliveiras mortas. Não eram guardas. Eram crianças, talvez dez, talvez vinte, todas descalças, todas com os lábios azuis, como se tivessem bebido o céu.
Tomás começou a chorar sem som.
— Eles saíram do poço.