Na noite em que o Tejo cheirou a ferro quente, Inês Valado recebeu a décima terceira mensagem de voz da irmã morta.
Não era uma mensagem normal. Não vinha de um número. Não tinha hora certa. Aparecia sempre como ficheiro corrompido, sem remetente, no telemóvel antigo que Inês usava apenas para gravar ruídos de campo: gaivotas, motores de barcos, conversas nos eléctricos, portas de prédios que gemiam como pessoas cansadas.
A voz de Mara surgia por baixo de uma camada de estática, como se falasse com a boca cheia de água.
— Inês... se ainda me ouves, não entregues a cassete. O Poço Azul não secou. Eles mentiram. E o Tomás... o Tomás viu tudo.
Inês ficou imóvel no estúdio minúsculo onde trabalhava a limpar áudio para podcasts de crimes reais. A luz azul do monitor desenhava-lhe olheiras no rosto. Do lado de fora, Lisboa racionada apagava-se por bairros: primeiro Alfama, depois Arroios, por fim a Graça inteira mergulhada num breu obediente.
Mara desaparecera havia seis meses, durante uma reportagem no interior alentejano. A versão oficial era simples: uma jornalista freelance, cansada, deprimida, perdera-se durante uma tempestade de pó junto à barragem velha de Santa Clarinda. O corpo nunca aparecera. A mãe aceitara a explicação porque precisava de dormir. Inês nunca aceitara porque conhecia a voz da irmã quando mentia, quando tinha medo, quando escondia uma gargalhada.
Na mensagem, Mara tinha medo.
Inês repetiu o ficheiro vinte e sete vezes. Na vigésima oitava, reparou num som atrás da voz: três batidas ocas, um assobio curto, depois água a cair numa superfície metálica. Era um padrão. Uma assinatura sonora. Anos antes, quando eram miúdas, Mara batia três vezes na parede do quarto para avisar que a mãe vinha aí.
O telemóvel vibrou de novo. Desta vez, não era áudio. Era uma localização: um ponto sem nome no mapa, a quarenta quilómetros de Beja, numa zona marcada como “restrita por risco hídrico”.
Segundos depois, alguém bateu à porta do estúdio: três batidas ocas.
Inês desligou o monitor. Pegou no gravador, na cassete que Mara lhe deixara antes de desaparecer — sem explicações, embrulhada num lenço vermelho — e numa navalha pequena que nunca tivera coragem de usar.
A porta abriu-se antes de ela chegar à fechadura.
Do outro lado estava Tomás, o irmão mais novo de Mara, que Inês não via desde o funeral sem corpo. Tinha doze anos, a camisola suja de barro seco e os olhos demasiado despertos para aquela hora.
— Não fui eu que bati — sussurrou ele.
Atrás dele, no corredor, a lâmpada tremeluziu. Uma mulher de fato cinzento, sem pressa, subia as escadas com um distintivo da Autoridade Nacional da Água preso ao peito.
— Inês Valado? — perguntou a mulher. — Precisamos de conversar sobre material roubado ao Estado.
Tomás agarrou-lhe a mão.
— Se ela levar a cassete, a Mara morre outra vez.