Viajaram durante horas por estradas secundárias, evitando portagens e câmaras. Tomás conduzia uma carrinha velha com matrículas falsas. Marta, no banco do passageiro, ouvia as mensagens repetidas vezes, à procura de instruções escondidas. Entre os estalidos, descobriu coordenadas em frequências graves, quase inaudíveis: números disfarçados no som do vento.
As coordenadas levaram-nos a uma planície seca, onde as oliveiras pareciam torcidas pela sede. Não havia cidade nenhuma. Só ruínas de uma estação de bombagem e uma placa enferrujada: “Propriedade privada. Perigo de abatimento.”
— É aqui? — perguntou Marta.
Tomás apontou para o chão.
— Lira não foi construída para se ver.
A entrada ficava dentro de um poço abandonado. Desceram por uma escada cravada na pedra até uma porta circular. Tomás usou uma chave antiga, mas a fechadura só abriu quando Marta, por impulso, cantou as primeiras notas da melodia de infância.
A porta respondeu com as mesmas três batidas.
Do outro lado, havia uma avenida subterrânea iluminada por uma luz azulada. Prédios baixos, jardins hidropónicos, carris silenciosos. Uma cidade inteira enterrada, intacta e húmida, como se tivesse sido afundada sem aviso. Pelas paredes corriam tubos transparentes cheios de água brilhante.
E dentro da água mexiam-se sombras.
Marta viu rostos por um segundo: uma mulher a rir, um velho a chorar, uma criança a abrir a boca num grito sem som. Depois desapareceram.
— Não olhe muito tempo — avisou Tomás. — A cidade devolve aquilo que lhe falta.
Encontraram Duarte numa antiga escola, sentado no chão de uma sala de aula, rodeado de desenhos. Tinha corpo de homem jovem, mas os olhos de alguém que acordara todos os dias com uma idade diferente. Nas paredes, desenhara centenas de poços e uma figura alta sem sombra.
— Inês disse que vinhas — afirmou ele.
Marta ajoelhou-se à sua frente.
— Onde está ela?
Duarte apontou para baixo.
— No arquivo profundo. Ela segura a porta para os outros não saírem.
— Que outros?
Ele tremeu.
— As memórias que aprenderam a ter fome.
Tomás examinou os desenhos. Num canto, havia o homem de fato claro, sempre sem sombra, mesmo quando as lâmpadas estavam desenhadas ao lado dele.
— Chama-se Vítor Seara — disse Tomás. — Director de segurança do projecto. Devia ter morrido no encerramento.
— Não morreu — respondeu Duarte. — Deu a sombra dele à água. Agora a água deixa-o entrar em qualquer lembrança.
Marta achou que ele delirava, até ouvir passos no corredor.
Vítor Seara apareceu à porta da sala, impecável, seco, sem uma gota de suor naquele mundo húmido. A luz azul atravessava-o de modo errado. Aos seus pés, não havia sombra.
— Marta Vale — disse ele, com uma cordialidade quase paternal. — A sua irmã tem sido muito útil. Mas está cansada. Ainda bem que veio substituí-la.
Tomás apontou-lhe uma pistola.
— Acabou, Seara.
Vítor sorriu.
De repente, Tomás virou a arma contra si próprio. O braço tremia, lutando contra uma ordem que não era dele.
— A água lembra-se do medo de todos — explicou Vítor. — E o medo é a fechadura mais obediente.
Marta agarrou uma cadeira e partiu um dos tubos da parede. A água azul espalhou-se pelo chão. Vozes encheram a sala, centenas delas, sobrepostas. Vítor cambaleou, irritado, e Tomás recuperou o controlo.
Duarte gritou:
— Por aqui!
Fugiram por corredores onde as luzes piscavam ao ritmo de corações invisíveis. Atrás deles, Vítor não corria. Apenas aparecia reflectido nas poças à frente, cada vez mais próximo.