Tomás levou Marta para um apartamento vazio nos arredores, um sítio com persianas fechadas e mapas antigos colados às paredes. No centro da sala havia uma planta da região do Monte Seco, mas a barragem não estava marcada. Em vez disso, lia-se “Projecto Lira — Zona de Retenção Hídrica e Cognitiva”.
— O que é isto? — perguntou Marta.
Tomás serviu dois copos de água, mas não bebeu nenhum.
— Nos anos noventa, um consórcio privado comprou terrenos no Alentejo para criar uma cidade experimental. Chamavam-lhe Lira. Uma comunidade auto-suficiente, energia limpa, agricultura subterrânea, reciclagem total da água. Na televisão, seria o futuro. Na prática, era um laboratório.
— Laboratório de quê?
— Memória.
Marta quase se riu, mas a expressão dele impediu-a.
Tomás explicou que os investigadores de Lira acreditavam que a água podia conservar padrões eléctricos do cérebro humano durante curtos períodos. Emoções fortes, traumas, vozes. Tentaram construir um sistema de arquivo vivo: tanques, condutas, sensores, algoritmos. Chamavam-lhe “o ouvido do mundo”. Depois aconteceram acidentes. Pessoas ouviam familiares mortos nos canos. Crianças sonhavam lembranças de desconhecidos. Técnicos entravam em salas de manutenção e saíam sem saber o próprio nome.
— E a minha irmã?
— Inês estudava geologia. A turma dela foi convidada para uma visita técnica à barragem, mas a barragem era só a cobertura. Ela descobriu uma entrada antiga. Desapareceu com mais dois colegas.
— Disse-me que ela caiu à água.
— Disseram-me para dizer isso.
Marta deu-lhe uma bofetada antes de perceber que ia fazê-lo.
Tomás aceitou o golpe sem se defender.
— Eu tinha uma filha de cinco anos. Recebi fotografias dela à porta da escola. Fui cobarde. Enterrei o processo.
O silêncio seguinte foi pior do que uma discussão.
O telemóvel de Marta vibrou outra vez. Nova mensagem de Inês. Desta vez, a voz vinha entrecortada, como se atravessasse quilómetros de metal.
— O rapaz não sabe quem é. Não o deixes tocar na água negra. Marta, se encontrares o Duarte, não confies no homem sem sombra.
— Duarte? — perguntou Marta.
Tomás fechou os olhos.
— O irmão mais novo de um dos colegas de Inês. Tinha nove anos quando foi procurar o irmão e desapareceu também. Nunca entrou nos relatórios oficiais.
— Um miúdo desapareceu e ninguém procurou?
— Procuraram. Só que quem procurava esquecia-se do que procurava.
Na mesa, o copo de água começou a vibrar. Pequenas ondas concêntricas formaram-se à superfície, apesar de nada lhe tocar. Então uma voz infantil saiu do copo, frágil e distante:
— Marta Vale, a sua irmã tem frio.
Tomás atirou o copo contra a parede. A água escorreu pelo reboco como se tentasse desenhar letras.
Do corredor veio um ruído. Três batidas secas na porta.
O homem de fato claro estava do lado de fora.
Tomás apagou as luzes e abriu um alçapão escondido debaixo do tapete.
— Há um túnel de serviço até às garagens. Se quiser a verdade, vamos para Lira hoje. Se ficar, eles levam-na e amanhã nem se lembra de ter tido uma irmã.
Marta desceu sem olhar para trás. No escuro, jurou ouvir Inês cantar a canção do poço, mas a última nota já não era humana.