Marta Vale trabalhava noites inteiras a limpar ruído de gravações antigas: casamentos com microfones baratos, depoimentos de tribunais, fitas de famílias que queriam ouvir outra vez a voz dos mortos sem o chiar da cassete. Aos trinta e dois anos, conhecia melhor o silêncio do que a maioria das pessoas conhece a própria casa.
Foi por isso que, quando o telemóvel vibrou às 03:17, ela percebeu logo que aquele som estava errado. Não era uma chamada. Não era uma notificação. Era uma mensagem de voz recebida numa aplicação que já não existia no mercado há seis anos.
O contacto dizia: “Inês”.
Marta ficou imóvel, com os auscultadores ainda nos ouvidos. A irmã Inês tinha desaparecido dez anos antes, numa excursão universitária perto da barragem do Monte Seco. Nunca encontraram corpo, mochila, sapatos, nada. Só uma pulseira partida junto à água e uma investigação fechada com a palavra “acidente”, como se essa palavra fosse uma pá de terra suficiente.
Carregou em reproduzir.
Primeiro, ouviu-se vento. Depois, uma respiração curta. E então a voz de Inês, mais velha do que devia ser, sussurrou:
— Marta, se ainda te lembras da nossa canção do poço, não venhas sozinha. Eles escutam a água.
A mensagem terminou com três batidas secas, como nós dos dedos numa porta metálica.
Marta recuou da secretária. O café entornou-se sobre papéis, mas ela nem reparou. Repetiu a gravação vinte vezes, a desmontar frequências, a medir compressão, a procurar sinais de montagem. Não havia cortes. Não havia falsificação evidente. E no fundo, quase escondido pelo vento, havia outra coisa: uma melodia de infância, desafinada, a mesma que Inês inventara quando eram pequenas e atiravam pedrinhas para um poço seco atrás da casa da avó.
Na manhã seguinte, levou a gravação a Tomás Rijo, antigo inspector da Judiciária que investigara o desaparecimento e que deixara a carreira pouco depois. Encontrou-o num café em Setúbal, mais magro, com as mãos tremidas e o olhar de quem tinha aprendido a não acreditar em coincidências.
— Isto é uma brincadeira cruel — disse ele, mas não conseguiu encará-la.
— Mentira. Reconhece alguma coisa.
Tomás ouviu a mensagem de novo. Ao chegar às três batidas, empalideceu.
— Onde arranjou isto?
— Recebi esta noite.
Ele levantou-se de repente.
— Apague. Esqueça. Há desaparecimentos que não são para ser resolvidos.
Marta agarrou-lhe o pulso.
— A minha irmã está viva?
Tomás hesitou apenas um segundo. Foi o suficiente para a destruir e reconstruir ao mesmo tempo.
— Se ela está a falar consigo — murmurou — então alguém abriu outra vez o Poço Azul.
Antes que Marta pudesse perguntar o que era o Poço Azul, o vidro do café estalou. Do outro lado da rua, um homem de fato claro observava-os sem se mexer, com um auricular translúcido na orelha. Tomás puxou Marta pela saída das traseiras.
— Agora já não tem escolha — disse ele. — Se a ouviram ouvir, vão atrás de si.