A cisterna levava a uma galeria antiga, anterior aos mapas da cidade. Leonor e Mateus avançaram por água fria até à cintura, guiados por pequenas lâmpadas que o rapaz tinha pendurado em fios. Ele tremia sem parar, mas quando uma vaga mais forte entrou pelo túnel, levantou a mão e a água acalmou, obediente e triste.
“Como fazes isso?” perguntou Leonor.
“Não faço. Peço. Às vezes ela ouve.”
Mateus contou a sua história em pedaços. A mãe trabalhara nas plataformas de dessalinização e morrera numa explosão que nunca aparecera nos noticiários. Depois disso, uma fundação chamada Horizonte Claro levou-o para um centro de acolhimento “especial”. Faziam testes, punham-no dentro de tanques, obrigavam-no a recordar coisas horríveis para ver se a água reagia. Tomás, que investigava arquivos de acidentes costeiros, descobrira relatórios apagados e tirara o rapaz de lá.
“Ele prometeu levar-me para a Serra, onde a água cai do céu e não manda em ninguém,” disse Mateus.
Leonor sentiu uma pontada. Tomás sempre fora o irmão impulsivo, o que roubava barcos, entrava em prédios interditos, dizia mentiras para proteger verdades. Ela passara anos a chamá-lo irresponsável. Agora percebia que ele apenas escolhera riscos que ela não tinha coragem de ver.
Chegaram a uma estação subterrânea desactivada. Nas paredes, cartazes antigos anunciavam praias que já não existiam. Ali, escondido numa carruagem coberta de ferrugem, estava o abrigo de Tomás: mapas, baterias, conservas, cadernos com nomes de políticos e empresários ligados à Horizonte Claro.
No centro, um computador portátil ainda tinha carga. Leonor abriu-o. Havia dezenas de ficheiros de áudio. O último chamava-se PARA A LEO — NÃO CONFIES NA PRIMEIRA LÁGRIMA.
Ela carregou.
A voz de Tomás surgiu baixa:
“Leo, se estás a ouvir isto com o Mateus, há uma coisa pior. O meu corpo no caixão não era meu. Usaram um afogado sem nome. Eu estou vivo, mas não sei por quanto tempo. Têm-me na comporta principal, no lado seco da Barragem Norte. Querem que o Mateus vá ter comigo. Vão usar-me como isco.”
Mateus recuou, pálido.
“Eu sabia. Eu sentia-o na água. Ele está a bater, como um peixe preso.”
Leonor fechou o computador. O instinto gritou-lhe para fugir com a criança. A culpa gritou mais alto: Tomás vivo.
Nesse momento, as luzes da estação acenderam-se todas ao mesmo tempo. Um altifalante antigo chiou. A voz do Dr. Evaristo espalhou-se pelos túneis:
“Leonor, sempre foste brilhante a recuperar vozes. Mas nunca aprendeste quando uma voz é armadilha. Entrega o rapaz e o teu irmão sai a respirar.”
Mateus agarrou-se a ela. Ao fundo da plataforma, homens armados desceram para a escuridão.