Leonor não foi para casa. Desceu por ruas laterais, com a água pelos tornozelos, até ao velho bairro de Santos, onde os prédios tinham marcas de sal até ao primeiro andar. A cidade aprendera a viver por camadas: os ricos subiam para colinas climatizadas; os pobres remendavam portas, erguiam passadiços, punham tomadas nos tectos.
A “casa azul” podia ser qualquer ruína pintada antes da última cheia. Mas a frase de Tomás era estranha: onde a maré sobe para dentro das paredes. Leonor lembrou-se então do Beco das Conchas, uma fileira de casas abandonadas construídas sobre antigas cisternas. Tomás levara-a lá uma vez, para gravar ecos.
A casa estava fechada com correntes novas. No portão, alguém desenhara a giz um círculo atravessado por uma linha ondulada.
Dentro, o rés-do-chão cheirava a algas e electricidade queimada. A maré entrava por fendas finas nas paredes, não em jorros, mas como suor. Na sala vazia, sobre uma mesa, havia um gravador antigo, de bobines, ligado a uma bateria.
Leonor carregou no botão.
A voz de Tomás encheu a casa:
“Se encontraste isto, desculpa. Não te contei porque achei que te protegia. Há um rapaz chamado Mateus. Tem dez anos, talvez onze. Quando se assusta, a água obedece-lhe. Não como magia de feira. Como se o Tejo respirasse com ele. Há gente que quer usá-lo para abrir a Barragem Norte e vender a salvação a quem puder pagar.”
A fita estalou. Depois surgiu outra voz, infantil:
“Tomás disse que a sua irmã arranja sons partidos. Eu também sou um som partido?”
Leonor tapou a boca. O medo deixou de ser abstracto; ganhou uma idade.
Um ruído nas escadas interrompeu a gravação. Ela agarrou no gravador e escondeu-se atrás de um armário tombado. Entraram dois homens com botas impermeáveis e lanternas. Não eram polícias. Usavam casacos sem símbolo.
“Ela veio cá,” disse um. “O Evaristo avisou.”
O outro respondeu: “Então já ouviu. O rapaz não pode continuar solto. A maré grande é amanhã.”
Leonor susteve a respiração. O primeiro homem aproximou-se do armário. A água no chão começou a tremer, formando círculos concêntricos, como se alguém chorasse debaixo das tábuas.
Da parede, uma pequena mão surgiu por uma abertura escondida e puxou Leonor para dentro de um vão estreito. Ela quase gritou, mas viu dois olhos escuros, enormes, num rosto magro.
“Sou o Mateus,” sussurrou o rapaz. “O Tomás disse que, se ele desaparecesse, eu devia esperar pela senhora.”
Atrás deles, os homens reviravam a sala. À frente, o túnel descia para a cisterna inundada. Mateus apertou a mão de Leonor.
“Consegue nadar no escuro?”
Ela nunca tinha tido tanto medo de água. Mas, pela primeira vez desde o funeral, tinha uma direcção.