No terceiro dia depois do funeral de Tomás, Leonor voltou ao Arquivo Sonoro Municipal com a roupa preta ainda a cheirar a incenso e chuva. Lisboa estava em alerta de maré alta; as sirenes tinham tocado duas vezes nessa manhã e, na Baixa, as comportas de emergência tremiam como costelas metálicas. Ninguém queria trabalhar. Mas Leonor precisava de ruído para não ouvir o vazio.
A sua função era limpar gravações antigas: discursos esquecidos, relatos de pescadores, fitas de famílias que tinham doado memórias ao município antes de as cheias lhes levarem as casas. Cortava estalidos, isolava vozes, devolvia nitidez a fantasmas.
Às 18h07, o telefone dela vibrou dentro da gaveta. Número desconhecido. Uma mensagem de voz.
Leonor quase não ouviu. Nos últimos dias, tudo parecia indecente: o som da máquina de café, o riso de duas estagiárias no corredor, até o tilintar das chaves. Mas carregou no play.
Primeiro veio o vento. Depois água, muita água, a bater contra uma superfície oca. E então a voz de Tomás, rouca, apressada:
“Leo, se isto chegar até ti, não acredites no que te disseram. Eu não caí do cais. Levaram-me por causa do miúdo. Procura a casa azul onde a maré sobe para dentro das paredes. E não fales com a Polícia do Rio.”
Leonor deixou cair o telemóvel.
O irmão tinha sido encontrado — disseram-lhe — sem vida, depois de uma queda nocturna junto ao antigo terminal de Alcântara. O caixão estivera fechado por causa do estado do corpo. A mãe, sedada, não fizera perguntas. Leonor fizera todas, e recebera sempre a mesma resposta: acidente.
Ouviu a mensagem cinco vezes. À sexta, reparou num detalhe escondido debaixo do som da água: três notas curtas, assobiadas por uma criança. A melodia era a mesma que Tomás inventara para a adormecer quando eram pequenos, no sótão da avó, durante as tempestades.
Na porta do laboratório apareceu o director do Arquivo, Dr. Evaristo, com o sorriso branco de quem nunca se molhava.
“Leonor, ainda cá? Devia ir para casa. As comportas podem fechar.”
Ela bloqueou o telemóvel depressa demais.
Evaristo olhou para a gaveta, depois para ela. “Más notícias continuam a chegar quando não as deixamos descansar.”
Leonor sentiu o sangue gelar. Ele não podia saber. A não ser que alguém estivesse à espera daquela mensagem.
Quando saiu do Arquivo, havia dois agentes da Polícia do Rio encostados ao carro dela. Um deles segurava um saco transparente com o cachecol de Tomás, aquele que tinham jurado ter desaparecido no mar.