A escada conduzia a uma cidade subterrânea iluminada por lagos suspensos. A água flutuava no ar em lençóis transparentes, presa por uma força antiga, reflectindo ruas de pedra, varandas sem céu e árvores brancas que cresciam de cabeça para baixo. O Poço de Sal não era um poço. Era uma cidade inteira escondida sob uma ferida da terra.
Havia pessoas ali. Algumas tinham desaparecido há meses; outras há décadas. Não envelheciam da mesma forma. Falavam baixo, como se cada palavra gastasse uma reserva invisível. Chamavam à cidade Calma.
Uma mulher chamada Ema, antiga enfermeira de Évora dada como morta em 1998, explicou-lhes a regra principal:
“A água daqui cura, lembra e prende. Quem bebe esquece a vida de cima aos poucos. Quem não bebe morre de sede. A Irmandade descobriu uma maneira de levar a água para a superfície. Se conseguirem, venderão memória engarrafada aos ricos e esquecimento aos culpados.”
Mara procurava Inês em cada rosto. Tiago caminhava ao lado dela, nervoso, enquanto a chave pingava sem parar.
“Porque és a fechadura?” perguntou Duarte.
O rapaz apertou os lábios.
“Porque nasci aqui.”
A revelação caiu como uma pedra. Tiago não era uma criança perdida; era filho de Calma. O primeiro nascido no Poço de Sal. Segundo Ema, isso tornava-o capaz de abrir a Nascente Mãe, a reserva profunda que alimentava todos os lagos suspensos. A Irmandade queria usá-lo.
Mara encontrou finalmente Inês na Casa das Vozes, uma biblioteca onde as prateleiras guardavam frascos com ecos humanos. A irmã estava viva, mas diferente: mais velha nos olhos, mais quieta nos gestos, com fios de sal no cabelo escuro. Não houve abraço imediato. Houve espanto, dor e a distância de sete anos.
“Mandaste mensagens e deixaste-me sofrer”, disse Mara.
“Eu mandava sempre. A água só deixou passar agora.”
“Porque agora?”
Inês olhou para Tiago.
“Porque a Irmandade encontrou a entrada certa.”
Mara soube então a verdade que ninguém pusera nos relatórios. Na expedição escolar, Inês e outras crianças tinham caído por uma fenda aberta por explosões ilegais de uma empresa mineira. Duarte, jovem agente, vira documentos que provavam a negligência. Mas a empresa financiava campanhas, abastecimentos, silêncios. Ele calara-se para salvar a carreira e, segundo dizia, para proteger a própria família de ameaças.
Inês sobrevivera em Calma. Tornara-se guardiã da Casa das Vozes, gravando mensagens dos desaparecidos e tentando enviá-las para cima sempre que as marés de sal enfraqueciam.
“Podes vir comigo”, disse Mara.
Inês sorriu com tristeza.
“Se eu sair, a Casa fica muda. E se a Casa ficar muda, ninguém se lembra dos que ainda estão presos.”
Antes que Mara pudesse discutir, as campainhas de conchas começaram a tocar por toda a cidade. A Irmandade entrara. Os seus membros avançavam pelas ruas subterrâneas com bombas de sucção e lanternas vermelhas. À frente deles vinha uma mulher de cabelo prateado, Leonor Canto, antiga ministra da Administração Interna, oficialmente reformada, secretamente dona da rede que comprara o silêncio de meio país.
Leonor olhou para Tiago como quem encontra uma chave de cofre.
“Meu menino”, disse ela, “acabou a brincadeira dos fantasmas.”
A água suspensa tremeu. E, pela primeira vez, começou a cair.