O Interior Seco começava onde acabavam as estradas vigiadas. Primeiro desapareciam as árvores, depois os postes, depois as sombras. O sal cobria tudo como uma neve sem frio. Duarte conduzia com as mãos demasiado firmes no volante, evitando marcas antigas no alcatrão.
“Há sete anos, eu estava no destacamento que procurou a sua irmã”, disse por fim. “Encontrámos mochilas, pegadas, uma câmara partida. Nunca encontrámos corpos.”
“E nunca me disse isso porquê?”
“Porque assinei um relatório falso.”
Mara não respondeu. A raiva veio primeiro, quente, familiar. Depois veio algo pior: esperança.
Pararam numa aldeia abandonada chamada Vale Cego. As casas tinham portas fechadas por dentro, como se os habitantes ainda estivessem lá, a prender a respiração. No largo, junto a uma fonte seca, encontraram um rapaz de doze anos a vender garrafas de vidro cheias de areia azul.
“Procuram o poço?” perguntou ele.
Duarte sacou da arma. O rapaz riu-se.
“Isso não dispara contra sede.”
Chamava-se Tiago, embora dissesse que os nomes se gastavam depressa no deserto. Usava ao pescoço uma chave enferrujada e trazia os pés descalços, sem uma única ferida. Quando Mara mencionou Inês, o sorriso dele desapareceu.
“Ela ensinou-me a contar histórias para a água aparecer.”
Mara agarrou-o pelos ombros.
“Viste a minha irmã?”
“Vi. Mas não hoje. Aqui, o hoje é uma coisa mal-educada.”
Tiago levou-os até à antiga escola da aldeia. No quadro ainda estava escrita uma frase a giz: A ÁGUA LEMBRA-SE DE QUEM A CHAMA. Por baixo, havia dezenas de nomes riscados. Inês não estava riscada.
Ao cair da noite, a aldeia encheu-se de vozes. Vinham das canalizações secas, dos jarros partidos, das torneiras sem cano. Eram mensagens de pessoas desaparecidas, repetindo frases incompletas. Duarte tapou os ouvidos. Mara, pelo contrário, abriu o gravador.
No meio do coro, distinguiu Inês:
“Se o rapaz estiver contigo, protege-o. Ele é a fechadura.”
Tiago recuou, assustado. A chave ao pescoço começou a pingar água.
Nesse instante, uma caravana de jipes negros entrou em Vale Cego sem faróis. Homens e mulheres vestidos com fatos claros desceram em silêncio, usando máscaras de tecido húmido. No peito traziam o símbolo de uma gota atravessada por uma faca.
Duarte murmurou:
“A Irmandade da Sede.”
Tiago puxou Mara para dentro da escola.
“Eles não querem beber”, disse o rapaz. “Querem mandar na nascente.”
As paredes tremeram. Do chão da sala, entre carteiras podres, abriu-se uma escada em espiral feita de sal húmido.
E lá de baixo veio a voz de Inês, desta vez sem telefone:
“Mara, desce. Mas deixa para trás a parte de ti que ainda acredita em finais felizes.”