Na madrugada em que Lisboa ficou coberta por uma névoa branca, Mara Vale acordou com o telemóvel a vibrar dentro de uma chávena vazia. Não se lembrava de o ter deixado ali. Trabalhava como restauradora de som no Arquivo Nacional das Vozes Perdidas, limpando ruídos de fitas antigas, depoimentos judiciais, cartas gravadas por emigrantes e confissões que ninguém reclamara. Estava habituada a vozes de mortos. Mas não à voz de Inês.
A irmã mais nova desaparecera há sete anos, durante uma expedição escolar ao Interior Seco, a faixa de território além do Tejo onde antigas salinas, minas abandonadas e aldeias evacuadas tinham sido engolidas por tempestades de sal. O caso fora encerrado como acidente. A mãe de ambas morrera sem aceitar essa palavra.
A mensagem não tinha número. Só um ficheiro: INES_00.wav.
“Mara, se estás a ouvir isto, não acredites no mapa. O mapa foi desenhado para nos fazer voltar. Eu estou no Poço de Sal. E não estou sozinha.”
A gravação terminava com um som impossível: água a correr ao contrário.
Mara levou o ficheiro para o laboratório antes do amanhecer. Ao isolar as frequências, encontrou uma segunda camada, escondida por baixo da voz da irmã: cinco batimentos metálicos, uma pausa, três batimentos, outra pausa. Código de poços, usado nas minas antigas para comunicar em túneis inundados.
A porta do laboratório abriu-se sem aviso. Entrou Duarte Anes, investigador da Unidade de Pessoas Não Encontradas, com olheiras de quem passara a noite a perder discussões.
“Recebeu alguma coisa esta noite?” perguntou ele.
Mara fechou o portátil.
“Porque pergunta?”
“Porque mais três famílias receberam mensagens semelhantes. Pessoas desaparecidas há anos. Todas mencionam o Poço de Sal.”
Mara sentiu o chão inclinar-se. Durante anos, fora chamada obsessiva por procurar padrões nas últimas fotografias de Inês. Agora um polícia vinha dizer-lhe que o fantasma da irmã fazia parte de uma lista.
Duarte pousou uma pasta sobre a mesa. Dentro, havia uma fotografia aérea do Interior Seco. No centro, uma mancha azul, pequena como uma nódoa de tinta.
“Chamamos-lhe o Oásis de Nossa Senhora da Fenda. Oficialmente, não existe.”
Antes que Mara respondesse, o telemóvel voltou a vibrar. INES_01.wav.
“Mara, ele vai dizer-te que é perigoso. É. Mas o perigo não é o deserto. É quem tem sede.”
Duarte ouviu a frase e empalideceu. Mara percebeu que ele sabia mais do que dizia.
Nessa mesma tarde, sem pedir licença ao luto nem à razão, entrou no carro dele e rumou para sul.