Às cinco da tarde, a notícia interna já circulava: Tomás Sotto suspenso preventivamente, investigação criminal iminente, cooperação total da Lúmen com as autoridades. A empresa organizava escândalos com a eficiência de quem organizava almoços.
Marta devia entregar a pen, escrever um relatório neutro e sair. Em vez disso, foi ao décimo terceiro andar.
O piso estava oficialmente em obras, fechado por plásticos e luzes frias. O número treze fora retirado dos botões do elevador por superstição corporativa; só se chegava lá pelas escadas de serviço. Marta subiu devagar, com a pen dentro do sapato e o coração a bater-lhe na garganta.
“Procure a cor preta.”
Encontrou-a numa parede inteira pintada de negro mate, escondida atrás de uma lona branca. No centro havia dezenas de fotografias presas por fios: funcionários, políticos, jornalistas, familiares. Entre elas, o pai de Marta. Por baixo do rosto dele, uma palavra escrita a tinta vermelha: VEREDICTO.
Marta aproximou-se, tremendo. Havia recortes de jornais sobre o processo, datas corrigidas à mão, extractos bancários e uma lista de testemunhas. Muitas estavam riscadas. Ao lado do nome de Inês Caetano, a mesma meia-lua.
A marca não era de vítimas ao acaso. Era um sinal colocado em pessoas que tinham visto alguma coisa.
Uma porta metálica rangeu atrás dela.
— Não devia estar aqui — disse uma voz feminina.
Marta virou-se. Era Leonor Fragoso, directora jurídica da Lúmen, impecável no seu fato branco.
— Curioso — respondeu Marta —, ia dizer o mesmo.
Leonor não pareceu surpreendida. Trazia uma pasta de couro e um sorriso de quem já tinha vencido antes do julgamento começar.
— O seu pai foi um homem teimoso. A teimosia é uma virtude bonita em funerais e péssima em tribunais.
Marta sentiu uma raiva antiga subir-lhe ao peito.
— Foi você que o destruiu.
— Eu? Não. Eu apenas redigi a versão que todos preferiram acreditar. O país adora culpados mortos. Não dão entrevistas, não recorrem, não mudam de advogado.
Marta deu um passo atrás, tentando calcular a distância até às escadas. Leonor percebeu.
— Não fuja. Ainda preciso de si.
— Para quê?
— Para repetir a história. A filha do inspector falsifica provas para vingar o pai, seduz um director suspenso e tenta chantagear uma empresa. É quase poético. Falta apenas uma gravação convincente.
Nesse momento, o telemóvel de Marta vibrou. Bateria a um por cento. Uma mensagem de número desconhecido: “Estou vivo. Não confies no julgamento público. T.”
Leonor também ouviu o som.
— Dê-me a pen.
— Que pen?
A bofetada veio rápida, seca, profissional. Marta caiu contra a parede preta e viu, por entre as fotografias, um pequeno dispositivo com luz vermelha. Uma câmara. Talvez antiga. Talvez activa.
Leonor aproximou-se.
— Há pessoas que nascem marcadas. A sua família é uma delas.
Marta cuspiu sangue para o chão e sorriu.
— E há pessoas que falam demais quando pensam que já ganharam.
A luz do dispositivo piscou. Leonor olhou para trás, pela primeira vez sem controlo.
Das colunas do piso ouviu-se a voz de Tomás, fraca mas audível:
— Obrigado, doutora. Era a confissão que faltava.