Tomás ofereceu-lhe uma visita guiada ao piso financeiro. Marta aceitou apenas porque recusar seria dar importância ao telefonema. Enquanto atravessavam open spaces impecáveis, ela reparou no modo como as conversas morriam à passagem dele. Não era respeito. Era precaução.
— Ninguém gosta de operações — disse Tomás, como se lhe lesse a expressão. — Somos os que dizem que não.
— Ou os que sabem onde estão escondidos os sins.
Ele olhou para ela de lado.
— Veio para me investigar?
— Vim para investigar números. As pessoas é que costumam atrapalhar.
A tensão entre ambos instalou-se como uma linha eléctrica: invisível, perigosa, impossível de ignorar. Tomás era elegante demais para parecer inocente, e atento demais para ser apenas vaidoso. Marta desconfiava disso. Desconfiava ainda mais do facto de, sempre que ele se aproximava, o seu instinto de fuga abrandar.
Ao fim da manhã, ela encontrou a primeira irregularidade: pagamentos feitos a uma microempresa chamada Noctiluz, criada três meses antes de receber quase dois milhões de euros por “consultoria de continuidade”. A morada correspondia a uma lavandaria encerrada em Setúbal. O sócio-gerente era um homem morto há quatro anos.
Quando pediu acesso ao servidor de arquivo, o sistema negou. Tomás apareceu cinco minutos depois com uma autorização temporária.
— Foi rápido — disse Marta.
— Há pedidos que não devem ficar registados muito tempo.
— Isso é uma confissão ou uma ajuda?
— É uma porta aberta. Cabe-lhe decidir se entra.
Entraram juntos numa sala técnica no fundo do corredor, onde o ruído das máquinas abafava as palavras. Havia ali um ponto morto: sem câmaras, sem microfones, sem janelas. Tomás fechou a porta e, por um instante, Marta levou a mão ao bolso, onde guardava uma pequena navalha.
Ele viu o gesto.
— Também não confia em salas sem câmaras.
— Confio menos em homens que as conhecem.
Tomás não se ofendeu. Tirou do bolso uma pen com fita azul e colocou-a sobre uma consola.
— Há seis meses, uma analista da Lúmen morreu num suposto acidente. Chamava-se Inês Caetano. Antes de morrer, deixou-me isto. Eu devia ter entregue à polícia, mas havia nomes lá dentro capazes de fazer desaparecer provas antes de serem lidas.
Marta sentiu o ar ficar mais pesado.
— Porque me mostra isto agora?
— Porque a Inês tinha uma marca no pulso. Uma meia-lua. Igual à da fotografia que descreveu sem querer quando perguntou se eu a tinha enviado.
Marta puxou a manga instintivamente.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que o seu pai investigou um esquema de contratos digitais antes de ser acusado. Sei que o caso foi arquivado depois da morte dele. E sei que alguém está a usar a mesma assinatura visual para escolher as próximas vítimas.
Antes que Marta respondesse, ouviu-se um toque seco do outro lado da porta. Depois outro. Código de segurança.
Tomás apagou a consola e escondeu a pen na mão dela, fechando-lhe os dedos com uma firmeza que lhe acelerou o pulso.
— Se me prenderem hoje, não diga que me conhece.
A porta abriu-se. Dois seguranças e a directora jurídica entraram.
— Senhor Sotto — disse ela —, acompanhe-nos. Há uma denúncia anónima por destruição de prova.
Tomás não olhou para Marta. Mas, ao passar por ela, murmurou quase sem som:
— No décimo terceiro andar, procure a cor preta.