Marta Vale entrou na Torre Lúmen às oito e doze da manhã, com o telemóvel sem bateria, um café por acabar e o crachá vermelho preso à lapela como se fosse uma sentença. Na empresa, todos sabiam o que significava aquela cor: auditoria externa, acesso limitado, sorriso obrigatório e medo a circular nos corredores como ar condicionado.
A Lúmen Data era uma consultora tecnológica com clientes do Estado, bancos e seguradoras. Vendia segurança digital, mas tinha demasiados segredos guardados em pastas sem nome. Marta fora contratada para rever as contas de um contrato público que cheirava a factura duplicada e a favores antigos. O trabalho devia durar três semanas. Ela precisava que durasse apenas duas: quanto menos tempo passasse naquele edifício de vidro, menos hipóteses haveria de alguém reconhecer o seu apelido.
Há sete anos, o pai de Marta, inspector da Polícia Judiciária, fora acusado de manipular provas num processo mediático. Morreu antes do julgamento, deixando uma filha com uma dívida, uma mãe em silêncio e um nome manchado. Desde então, Marta aprendera a falar baixo, a não confiar em absolvições póstumas e a nunca entrar numa sala sem verificar as saídas.
No elevador, um homem segurou a porta por ela.
— Vai para o décimo sétimo? — perguntou, olhando para o crachá.
Tinha a voz calma de quem estava habituado a mandar sem levantar o tom. Fato cinzento, gravata escura, olhos de um verde cansado. No cartão lia-se: Tomás Sotto, Director de Operações.
— Vou para onde me deixarem ir — respondeu Marta.
Ele sorriu, não como quem achava graça, mas como quem reconhecia uma ameaça bem construída.
— Então vai precisar de mapas. Aqui, os corredores mudam quando convém.
Marta devia ter ignorado a frase. Em vez disso, guardou-a. As pessoas revelavam-se nos comentários que julgavam inofensivos.
No décimo sétimo andar, a sala de auditoria esperava-a com duas cadeiras, uma janela sobre Lisboa e uma caixa de arquivo pousada no centro da mesa. Dentro, havia contratos, pendrives e uma fotografia impressa sem remetente: uma mulher de costas, à noite, à entrada da Torre Lúmen. No pulso, uma marca escura em forma de meia-lua.
Marta ficou imóvel.
Aquela marca era igual à cicatriz que ela escondia debaixo da manga. Uma queimadura antiga, feita quando tinha dezasseis anos, na noite em que ardeu o carro do pai.
Antes que pudesse tocar na fotografia, o telefone fixo da sala tocou.
— Senhora Vale — disse uma voz distorcida —, se quer limpar o nome do seu pai, não confie no homem que acabou de conhecer.
A chamada caiu. No vidro da janela, atrás do reflexo de Marta, apareceu Tomás à porta.
— Está tudo bem? — perguntou.
Ela fechou a caixa devagar.
— Depende. Foi você que me mandou uma fotografia?
O sorriso dele desapareceu.
— Que fotografia?
E, pela primeira vez em muitos anos, Marta não soube se estava perante um cúmplice, uma isca ou a única pessoa naquela torre tão assustada como ela.