O décimo nono andar parecia um hotel caro: madeira escura, arte abstracta, silêncio comprado. Leonor entrou sozinha, mas Duarte seguia-a à distância através das câmaras internas que conseguira reactivar no seu telemóvel. Tinham combinado um plano simples e desesperado: ela iria ganhar tempo; ele faria uma cópia remota dos ficheiros e enviá-los-ia para uma procuradora que não constava nos contactos da empresa.
Na sala principal, Helena Vale estava sentada numa cadeira, com as mãos presas por fita de embalagem. O rosto tinha a vergonha de quem envelheceu a fugir de uma verdade.
Junto à janela encontrava-se Augusto Salgado, fundador da VozAlta, pai de Duarte, homem de voz pública suave e decisões privadas brutais. Ao lado dele, inesperadamente, estava Sofia Brandão, directora criativa da empresa e rosto feminista das campanhas institucionais.
Leonor percebeu, naquele instante, que o mal raramente usa apenas um rosto.
— A tradutora — disse Augusto, sorrindo. — Sempre achei fascinante quem vive de pôr palavras certas na boca dos outros.
— E eu sempre achei fascinante quem precisa de matar para não ouvir a verdade.
Sofia aproximou-se. No pulso, uma tatuagem de meia-lua, retocada recentemente.
Leonor olhou para a mãe, confusa.
Helena chorou.
— Eu não levava as raparigas, Leonor. Eu limpava as salas depois. Vi coisas. Ouvi coisas. Eles obrigaram-me a assinar. Quando a Inês quis falar, eu implorei-lhe que fugisse. Ela não me perdoou.
Sofia riu, sem alegria.
— A tua irmã era ingénua. Achava que uma gravação podia derrubar homens como Augusto.
Leonor sentiu o mundo estreitar.
— Foi a Sofia que desenhou a meia-lua na parede. Queria culpar a minha mãe.
— Queria culpar uma mulher marcada — respondeu Sofia. — O público adora uma bruxa. Dá menos trabalho do que aceitar uma rede inteira.
Augusto ergueu um comando. No ecrã da sala apareceu uma transmissão interna pronta para ser enviada à imprensa: imagens manipuladas de Leonor sobre o corpo de Marta, a pen na mão, a expressão aterrada convertida em culpa.
— A narrativa já está escrita — disse ele. — Tradutora perturbada, trauma familiar, vingança contra a empresa. Amanhã, serás famosa.
Leonor respirou fundo. O medo ainda estava lá, mas a raiva tinha-lhe dado uma espinha nova.
— Esqueceu-se de uma coisa.
— Qual?
— Eu sou tradutora. Sei quando uma frase foi montada.
Tirou do bolso não a pen USB, mas uma segunda unidade, vazia. A verdadeira estava escondida dentro do forro do casaco de Duarte, que, nesse momento, surgia à porta com o telemóvel erguido.
— E eu sou advogado — disse Duarte. — Sei quando uma confissão já chega.
No ecrã do telemóvel, uma luz vermelha indicava transmissão em directo. Não para a imprensa da VozAlta. Para milhares de espectadores de uma conta anónima criada por Marta, que antes de morrer deixara tudo programado.
Augusto avançou para o filho.
— Desliga isso.
Duarte não se mexeu.
— Passei a vida a obedecer-lhe. Considere isto a minha primeira decisão adulta.
Sofia tentou fugir, mas Helena, com as mãos ainda presas, esticou a perna e fê-la tropeçar. Pela primeira vez em doze anos, a mãe de Leonor não pareceu pequena.
As sirenes começaram a ouvir-se ao longe.
Então Augusto sorriu de novo.
— Acham que isto acaba comigo preso? Há nomes na pen que vocês nem imaginam. Se eu cair, levo metade do país.
Leonor aproximou-se dele.
— Óptimo. Sempre achei que havia gente a mais de pé.