Duarte levou-a para a escada de serviço, desceram oito andares sem falar e esconderam-se numa sala técnica onde o cheiro a cabos quentes abafava o medo. Leonor exigiu explicações, mas ele só lhe pediu a pen USB.
— Nem pense — disse ela. — Uma mulher morreu por causa disto.
— Precisamente. E se a entregares à polícia errada, morres também.
Duarte contou-lhe que Marta investigava, há meses, pagamentos feitos pela VozAlta a antigos membros da produção de Estrela da Manhã. O programa fora cancelado após a queda de uma participante no palco, oficialmente um acidente. Inês, a irmã de Leonor, suicidara-se seis semanas depois. O caso fora arquivado com a rapidez elegante dos escândalos bem pagos.
Leonor sentiu uma raiva antiga subir-lhe à garganta.
— A sua empresa matou a minha irmã.
— A empresa do meu pai — corrigiu Duarte, mas a culpa atravessou-lhe o rosto. — Eu só descobri parte disto há pouco tempo.
Ela riu sem humor.
— Que conveniente. O príncipe da torre afinal é inocente.
Duarte aproximou-se, mas parou antes de lhe tocar.
— Não sou inocente. Durante anos assinei documentos sem fazer perguntas. Isso também é uma forma de culpa.
Leonor ligou a pen a um portátil antigo da sala técnica. Havia vídeos, áudios e uma pasta chamada “VEREDICTO”. Dentro, Marta gravara depoimentos de três antigas concorrentes. Todas falavam de festas privadas organizadas por produtores, de contratos de silêncio e de uma mulher com uma marca de meia-lua no pulso que levava raparigas até uma sala sem câmaras.
Leonor gelou.
A mulher não era ela. Era Helena Vale, sua mãe.
A mãe que passara os últimos doze anos sentada à janela, a repetir que nada podia ter feito para salvar Inês. A mãe que usava sempre pulseiras largas para esconder o pulso.
No ecrã surgiu um último vídeo de Marta, gravado nessa noite. A jornalista estava pálida, dentro do arquivo.
“Se estás a ver isto, Leonor, desculpa. Chamei-te aqui porque eras a única pessoa capaz de traduzir a gravação original. A prova decisiva está em italiano. O nome do mandante não é o que todos pensam.”
Leonor afastou-se como se o computador a tivesse mordido.
— Ela sabia que eu vinha.
Duarte franziu o sobrolho.
— Então isto não foi acaso. Fizeram de ti testemunha.
O telemóvel de Leonor voltou a vibrar. Desta vez, era uma chamada da mãe. Atendeu sem pensar.
Do outro lado, Helena chorava.
— Filha, não entregues nada. Se entregares, ele acaba comigo. E contigo.
— Ele quem, mãe?
Houve uma respiração pesada. Depois, uma voz masculina pegou no telefone.
— Menina Vale, ainda temos muito para conversar. Suba ao décimo nono andar. Sozinha. Ou a sua mãe aprende finalmente a ficar calada.
A chamada caiu.
Duarte empalideceu.
— O décimo nono é o andar da administração.
Leonor guardou a pen no bolso.
— Então está na altura de eu deixar de desaparecer.