Leonor Vale tinha o dom de desaparecer em salas cheias. Aos vinte e nove anos, trabalhava como tradutora juramentada na Torre Âmbar, sede da maior plataforma de entretenimento digital do país, a VozAlta. Não aparecia nos cartazes, não ia às galas, não sorria para câmaras. Sentava-se numa cabine de vidro no décimo sétimo andar, com auscultadores nos ouvidos, a transformar segredos estrangeiros em português impecável.
Naquela segunda-feira, às 23h12, a empresa ainda fervilhava como se o dia não tivesse terminado. Havia uma auditoria iminente, um documentário polémico prestes a estrear e rumores sobre a compra de um canal concorrente. Leonor ficara até tarde a traduzir um contrato em francês sobre direitos musicais. O ficheiro tinha uma cláusula estranha: uma indemnização milionária a uma família cuja filha, anos antes, desaparecera depois de participar num concurso produzido pela VozAlta.
Antes que pudesse ler mais, ouviu um grito curto, abafado, vindo da sala de arquivo audiovisual.
Leonor abriu a porta da cabine. O corredor estava quase às escuras. Seguiu a luz intermitente do sensor avariado e viu, através da divisória fosca, duas silhuetas. Uma delas tombou contra uma estante. A outra aproximou-se e sussurrou algo que ela não conseguiu perceber. Depois, silêncio.
O seu telemóvel vibrou. Uma mensagem de número desconhecido: “Não olhes.”
Leonor olhou.
No chão da sala estava Marta Lemos, jornalista interna da empresa, com a mão fechada sobre uma pen USB preta. Ao lado dela, desenhada a batom vermelho na parede, havia uma pequena meia-lua — a mesma marca que Leonor tinha tatuada no pulso, feita em segredo quando tinha dezassete anos, depois da morte da irmã.
Ela recuou, sentindo o estômago cair-lhe. Não era possível. Aquela meia-lua pertencera ao grupo de raparigas que, durante o concurso juvenil Estrela da Manhã, juraram nunca contar o que acontecera nos bastidores. Uma delas era Inês, a irmã de Leonor. Outra era a rapariga desaparecida referida no contrato.
Antes de fugir, Leonor agarrou a pen USB da mão de Marta. Foi então que uma voz masculina surgiu atrás dela.
— Se ficares aqui, vão dizer que foste tu.
Era Duarte Salgado, director jurídico da VozAlta, herdeiro discreto de uma família influente e o homem que, há três meses, começara a trazer-lhe café sem açúcar sempre que ela ficava até tarde. Bonito de uma forma perigosa, com fatos demasiado perfeitos e olhos que pareciam guardar processos inteiros.
Leonor apertou a pen contra a palma.
— E porque é que eu devia confiar em si?
Duarte olhou para a câmara de vigilância no tecto. A luz estava desligada.
— Porque quem fez isto desligou as câmaras. E eu não fui.
Ao longe, o elevador apitou. Alguém subia.
Duarte estendeu-lhe a mão.
— Se quiseres viver até de manhã, vem comigo.
Leonor odiou o facto de a mão dele lhe parecer a única saída.