O esconderijo era uma antiga escola primária em Alfama, transformada por Beatriz Valente num centro de explicações gratuito antes de morrer. Fechara oficialmente há cinco anos, mas Tomás ainda tinha as chaves. As paredes guardavam desenhos de crianças, mapas rasgados e frases motivacionais que agora pareciam ameaças escritas em cores vivas.
“APRENDE A DIZER A VERDADE.”
Mara ficou diante dessa frase mais tempo do que queria.
Tomás ligou um computador velho, isolado da rede, e inseriu a pen encontrada dentro do dossiê. Havia vídeos, relatórios, gravações de chamadas. O Projecto Azul não era apenas um programa ilegal de casas de acolhimento: era uma fábrica de testemunhas. Crianças sem família eram treinadas, manipuladas e colocadas em situações onde podiam incriminar, desviar ou proteger figuras poderosas. Algumas tornavam-se informadoras. Outras desapareciam quando aprendiam demais.
As marcas azuis serviam para as identificar entre operacionais.
Mara sentiu o estômago virar-se.
— Eu pensava que era um castigo — disse, quase sem voz. — Diziam que era para eu me lembrar de obedecer.
Tomás não respondeu logo. Quando o fez, a voz saía-lhe baixa.
— A minha mãe descobriu isto tarde demais. O meu pai convenceu-a de que eram apenas irregularidades em instituições financiadas por clientes. Quando ela percebeu que a empresa geria a limpeza dos crimes, tentou entregar tudo a um juiz.
— E morreu.
— Sim.
No ecrã, uma pasta tinha o nome “VEREDICTO”. Lá dentro havia uma gravação de Duarte Valente numa reunião secreta, muitos anos antes. A voz dele era inconfundível:
“Não precisamos de inocentes. Precisamos de versões que sobrevivam em tribunal.”
Mara recuou como se tivesse levado uma bofetada.
Durante anos, acreditara que a vergonha era dela. Que a marca no pulso provava algum defeito, alguma sujidade. Agora via que era uma assinatura. Um recibo de propriedade.
— Temos de divulgar isto — disse ela.
— Se largarmos tudo na internet, vão dizer que é montagem. O meu pai controla peritos, comentadores, até vítimas falsas. Precisamos de alguém que confirme em tribunal.
— Eu sou testemunha.
Tomás olhou-a com uma ternura que a irritou por ser real.
— És também a pessoa que eles já estão a acusar.
— Então ensino-lhes uma lição.
Mara aproximou-se do quadro da antiga sala de aula e pegou num pedaço de giz. Escreveu três nomes: Helena, Beatriz, Duarte. Depois acrescentou um quarto: INSPECTOR RUI FIGUEIREDO.
— O polícia amigo do teu pai. Se ele fabricou a minha culpa, precisa de entregar provas falsas. Vamos fazê-lo falar.
Tomás cruzou os braços.
— Estás a propor uma armadilha.
— Estou a propor uma aula prática.
O plano era perigoso e imperfeito, como todos os planos feitos por pessoas encurraladas. Mara enviaria mensagem ao inspector a dizer que queria entregar-se, mas só depois de garantir imunidade. Fingiria ter escondido uma cópia das provas num cacifo da estação de Santa Apolónia. Tomás, por sua vez, usaria uma antiga conta da mãe para alertar uma juíza reformada, Leonor Seabra, conhecida por ter sido destruída publicamente após tentar investigar a empresa.
— E se a juíza não vier? — perguntou Tomás.
— Então pelo menos fico a saber quanto vale a minha vida.
Ele aproximou-se.
— Não digas isso.
— Porquê? Fica mal no relatório de crise?
Tomás segurou-lhe o rosto antes que ela pudesse esconder a ferida atrás do sarcasmo.
— Porque eu passei anos a odiar o meu nome, mas só hoje percebi que odiá-lo não chega. Se não te tirar viva disto, continuo a ser filho dele.
Mara quis responder com dureza. Em vez disso, beijou-o.
Foi um beijo breve, assustado, cheio de chuva seca na pele e raiva acumulada. Não resolveu nada. Apenas tornou tudo mais perigoso.
O computador apitou.
Uma nova pasta abriu-se sozinha, como se alguém tivesse activado acesso remoto.
No ecrã surgiu uma transmissão em directo da rua em frente à escola.
Carros pretos. Homens a sair. Um deles, de sobretudo escuro.
E uma mensagem:
“O professor chegou. A aula acabou.”