Mara saiu na estação seguinte empurrando pessoas, subiu as escadas a correr e entrou no primeiro autocarro que apareceu. Não sabia o destino. Só sabia que a chuva era melhor do que aquele reflexo.
Quando desceu em Arroios, Tomás Valente esperava junto a uma papelaria fechada, sem guarda-chuva, como se a tempestade tivesse sido convocada por ele.
— Como é que me encontraste? — perguntou Mara, recuando.
— Não fui eu. — Tomás mostrou-lhe o telemóvel. — O crachá da empresa tem localizador para emergências. Ideia do meu pai, não minha.
— Conveniente.
— Mara, a Helena está morta.
A frase caiu entre os dois como um vidro a partir-se.
Ela apertou o dossiê contra o peito.
— Então chama a polícia.
— Já chamaram. E disseram que foi suicídio.
Mara riu sem humor. Um riso curto, quase cruel.
— Com um homem no arquivo? Com sangue? Com uma pen no bolso?
— É por isso que te procurei.
Tomás deu um passo, mas ela levantou a mão.
A proximidade dele sempre a irritara. Não era apenas por ser bonito de uma forma demasiado limpa, com fatos caros e uma voz treinada para convencer investidores. Era porque parecia ver mais do que devia. Nos elevadores, nas reuniões, nos silêncios. Como se soubesse que Mara era feita de portas fechadas.
— Porque me disseste para não ir à polícia? — perguntou ela.
Tomás olhou para o trânsito, depois para ela.
— Porque o inspector responsável pelo caso janta com o meu pai todas as quintas-feiras.
O nome de Duarte Valente não precisava de apresentação. Fundador da empresa, antigo consultor de ministros, especialista em transformar culpa em mal-entendido. Se a opinião pública fosse um tribunal, Duarte era juiz e carrasco.
— Estás a dizer que o teu pai mandou matar a Helena?
— Estou a dizer que, se ela morreu dentro da nossa empresa e meia hora depois já há uma versão oficial, alguém preparou isto.
Mara abriu o dossiê com as mãos molhadas. As primeiras páginas tinham listas de nomes, fotografias antigas, relatórios médicos, contratos de confidencialidade. Crianças em casas de acolhimento privadas. Testes psicológicos. Programas de “integração social”.
E em várias páginas, o mesmo símbolo: três linhas azuis.
Tomás viu o pulso dela quando a manga escorregou.
A expressão dele mudou. Não para horror. Para reconhecimento.
— Tu também foste uma delas — murmurou.
Mara fechou o dossiê num golpe.
— Sabias?
— Não. Mas a minha mãe investigou isso antes de morrer.
A chuva pareceu parar por um segundo.
A mãe de Tomás, Beatriz Valente, morrera anos antes num acidente de carro muito conveniente, depois de se afastar da empresa e doar dinheiro a instituições de menores. Nos corredores, falava-se dela como se fosse uma santa frágil. Tomás raramente a mencionava.
— A Helena ligou-me ontem — disse ele. — Disse que tinha encontrado a prova que a minha mãe procurava. Marcámos encontro hoje. Quando cheguei, a polícia já estava lá.
Mara queria não acreditar nele. Era mais seguro desconfiar. Mais fácil odiar o herdeiro do que admitir que a única pessoa disposta a ajudá-la vinha precisamente da família que podia ter destruído a sua vida.
O telefone dela vibrou.
Número desconhecido.
Uma mensagem de vídeo.
Mara abriu.
No ecrã, via-se a entrada do arquivo morto. A imagem era granulada, mas clara o suficiente para mostrar Mara a sair a correr com o dossiê. Segundos depois, aparecia Helena no chão.
Texto por baixo:
“Confessa, ou a próxima tradução será o teu obituário.”
Tomás leu por cima do ombro dela.
— Vão pôr a culpa em ti.
— Já começaram.
Do outro lado da rua, um carro preto estacionado ligou os faróis.
Tomás agarrou-lhe a mão.
— Vem comigo.
— Para onde?
— Para o único sítio onde o meu pai não entra.
Mara hesitou só um instante. Depois correu com ele pela chuva, odiando a maneira como a mão dele parecia firme no meio do caos.