No décimo quarto piso da Torre Atlântica, em Lisboa, havia uma sala sem nome na planta do edifício. Para todos os funcionários da Valente & Mota, consultora de reputação pública, era apenas “o arquivo morto”: uma porta cinzenta, sem janela, onde se guardavam dossiês antigos e contratos que já ninguém tinha coragem de destruir.
Mara Esteves conhecia bem portas sem nome. Aos trinta e dois anos, trabalhava como tradutora jurídica, invisível entre advogados, gestores de crise e directores que falavam em “narrativas” como se a verdade fosse uma cor que se pudesse escolher. Fazia traduções para processos internacionais, corrigia comunicados antes de serem enviados à imprensa e nunca ficava para beber copos nas sextas-feiras.
Também nunca usava mangas curtas.
No pulso esquerdo, escondida sob tecido, havia uma marca antiga: três linhas de tinta azul tatuadas à força quando era adolescente, numa casa de acolhimento que oficialmente nunca existira. A marca era a razão pela qual Mara não gostava de perguntas. E era também a razão pela qual, naquela terça-feira de chuva, não conseguiu ignorar o som vindo do arquivo morto.
Um baque. Depois outro. Depois uma voz masculina, abafada:
— Se ela falou, acaba hoje.
Mara parou no corredor com uma pasta apertada contra o peito. Devia voltar para a sua secretária. Devia chamar a segurança. Devia fazer qualquer coisa racional. Mas a palavra “ela” prendeu-lhe o corpo ao chão.
A porta estava entreaberta.
Pela fresta, viu Helena Prado, directora de comunicação da firma, encostada à mesa metálica, pálida, com sangue no colarinho branco. À frente dela estava um homem de costas, de sobretudo escuro. Não lhe viu a cara. Viu apenas a mão dele, coberta por uma luva, a pousar uma pen USB no bolso de Helena.
E depois viu uma coisa que lhe gelou o sangue: no pulso da mulher caída havia a mesma marca azul de Mara.
Três linhas.
A porta rangeu sob a mão trémula de Mara.
O homem virou-se.
Ela fugiu antes de lhe ver o rosto.
Desceu pelas escadas de emergência sem respirar, saiu para a chuva e misturou-se com a multidão da Avenida da República. Só quando chegou ao metro percebeu que tinha trazido consigo a pasta errada. Em vez das traduções, segurava um dossiê negro, retirado por engano da sala.
Na capa, em letras sem logótipo, lia-se: “PROJECTO AZUL — TESTEMUNHAS A ELIMINAR”.
O telemóvel tocou.
No ecrã apareceu o nome do homem que Mara mais evitava no escritório: Tomás Valente, herdeiro da firma, director de estratégia, sorriso de revista e reputação de conseguir apagar incêndios antes de chegarem aos jornais.
Ela não atendeu.
A mensagem chegou segundos depois:
“Vi-te sair. Não vás à polícia antes de falares comigo.”
Mara olhou em redor, sentindo que todos os passageiros do metro tinham olhos demais. A carruagem arrancou com um guincho metálico.
E no reflexo da janela, por trás dela, estava o homem de sobretudo escuro.