À meia-noite, Lisboa era uma cidade lavada por chuva fina. Tomás esperava por Inês na garagem, sem gravata, com o cabelo molhado e uma mochila ao ombro. Parecia menos director e mais homem. Isso tornava tudo pior.
Subiram pelo elevador de serviço usando o cartão vermelho. No visor, o número 17 surgiu apenas como um traço. As portas abriram-se para o corredor escuro. Inês sentiu o cheiro metálico da noite anterior, embora o chão estivesse impecável.
— Como sabes tanto sobre isto? — perguntou ela.
Tomás hesitou antes de responder.
— Porque a minha irmã foi condenada por homicídio há oito anos com base num relatório forjado. A Atlântica & Nobre assessorou a empresa que lucrou com a condenação. Eu aceitei trabalhar aqui para encontrar provas.
— E encontraste?
— Encontrei dívidas, favores, nomes. Nunca encontrei a assinatura que ligasse Helena Nobre à Tríade.
No gabinete onde Moura caíra, descobriram uma secretária vazia, mas Inês reparou num risco no rodapé. Tomás abriu-o com uma lâmina. Dentro, havia um pequeno gravador.
A voz de Moura emergiu fraca, mas clara: «Se eu morrer, a audiência Lótus não foi legítima. O perito principal recebeu instruções de Helena Nobre. O dinheiro passou pela Fundação Orpheu. A testemunha-chave foi comprada.»
Inês sentiu as pernas cederem.
— Audiência Lótus… era o caso do meu pai. Ele ia publicar uma peça sobre isso na semana em que morreu.
Tomás aproximou-se para a amparar. O toque dele no braço foi breve, mas atravessou-a como uma promessa impossível.
— Temos de sair.
Tarde demais. As luzes acenderam-se.
No monitor da parede surgiu Helena Nobre, sentada no seu gabinete, como se conduzisse uma aula.
— Sempre acreditei que os jovens aprendem melhor quando enfrentam consequências reais — disse ela. — Inês, o seu pai era talentoso, mas confundia justiça com vaidade. Tomás, a sua irmã foi útil: ensinou a muitos que a verdade é negociável.
Inês apertou o gravador na mão.
— Matou Moura.
— Moura matou-se no momento em que decidiu falar. O resto foi logística.
Atrás deles, a porta do corredor abriu-se. A mulher de luvas cinzentas entrou, agora sem disfarce. Era Marta Sequeira, directora de compliance, a mesma que todos chamavam «a professora» porque dava formações obrigatórias sobre integridade. No pulso, três círculos tatuados.
— Entreguem o gravador — disse Marta. — E talvez desçamos todos vivos.
Tomás colocou-se à frente de Inês.
— Não.
Marta levantou uma arma pequena, quase elegante. Inês, sem pensar, atirou a mochila de Tomás contra o sensor de incêndio. A água explodiu do tecto, as luzes piscaram, o alarme uivou. Tomás agarrou-lhe a mão e correram pelo corredor inundado.
No elevador, enquanto as portas fechavam, ele beijou-a.
Não foi um beijo romântico, nem calmo, nem sensato. Foi um erro com gosto a chuva, medo e verdade. Quando se separaram, Inês percebeu que ambos tinham acabado de tornar tudo mais perigoso.
— Desculpa — disse Tomás.
— Pede desculpa se sobrevivermos.
As portas abriram-se na garagem. À frente deles estavam dois seguranças.
E atrás, no alto-falante do edifício, a voz de Helena anunciou: «Evacuação geral. Foi detectada uma intrusão criminosa.»