Na manhã seguinte, a notícia espalhou-se como perfume caro: o doutor Artur Moura, consultor externo e antigo procurador, morrera de ataque cardíaco no seu apartamento. Inês leu a nota interna três vezes, incapaz de ligar a imagem do homem caído no piso secreto ao obituário polido enviado pelos recursos humanos.
Às onze, foi chamada ao gabinete de Helena Nobre, sócia fundadora. Helena era uma mulher que nunca levantava a voz porque todos se calavam antes de ser preciso. Tinha setenta anos, cabelo branco preso num nó perfeito e olhos de quem coleccionava fraquezas.
— A Inês trabalhou até tarde ontem — disse Helena, sem a convidar a sentar. — Viu alguma coisa invulgar?
A pergunta não tinha curiosidade; tinha lâmina.
— Só e-mails por responder.
Helena sorriu.
— Excelente. A discrição é uma forma superior de inteligência.
Quando Inês saiu, encontrou sobre a secretária um envelope sem remetente. Dentro havia uma fotografia antiga do pai, Raul Valente, à saída de um tribunal. Inês tinha catorze anos quando Raul, jornalista de investigação, se matara numa estação de serviço perto de Santarém. Pelo menos fora isso que a polícia concluíra. Na fotografia, alguém desenhara a tinta preta três círculos no pulso do pai.
O sangue abandonou-lhe o rosto.
Tomás apareceu à porta como se tivesse sentido a queda de temperatura.
— Vem comigo.
— Porquê? Para me dizeres outra vez para ficar calada?
Ele fechou a porta do gabinete dela.
— Para te dizer que, se continuares aqui, não chegas ao fim da semana.
Inês riu sem humor.
— E devo confiar no director financeiro de uma empresa que tem um piso fantasma?
Tomás tirou do bolso um cartão de acesso vermelho e colocou-o sobre a mesa.
— Não deves confiar em mim. Deves usar-me.
A frase ficou suspensa, íntima e perigosa. Entre eles havia meses de olhares contidos em reuniões, pequenos atritos disfarçados de profissionalismo, a electricidade absurda de duas pessoas que se reconhecem antes de terem permissão. Inês odiou que o coração lhe batesse mais depressa precisamente naquele momento.
— O que é a marca? — perguntou ela, mostrando a fotografia.
Tomás empalideceu.
— Chama-se Tríade. Não é uma organização oficial. É uma rede: advogados, peritos, polícias, gestores. Fabricam verdades para quem pode pagar. Absolvições, condenações, falências, suicídios.
— O meu pai investigava-os.
— E alguém dentro desta casa ajudou a enterrá-lo.
Antes que Inês respondesse, o telemóvel vibrou com uma mensagem de número desconhecido: «Se deres mais um passo, a próxima fotografia será da tua mãe.»
Tomás viu o ecrã. A frieza habitual voltou-lhe ao rosto, mas agora tinha outra natureza: decisão.
— Esta noite entramos no 17.º piso.
— Entramos?
— Se a Tríade matou Moura, deixou lá algo. E se deixou algo, tu és a única testemunha viva que pode ligar tudo.
Inês percebeu que o medo já não a empurrava para trás. Empurrava-a para a verdade.