Inês Valente aprendera a ser invisível no edifício da Atlântica & Nobre, uma consultora que ocupava vinte andares de vidro sobre a Avenida da Liberdade e falava de ética em brochuras com papel reciclado. Era jurista júnior, contratada para rever cláusulas que ninguém lia e para sorrir quando os sócios diziam que «a casa é uma família». Inês sabia o valor dessa frase: uma família também podia esconder cadáveres no armário.
Na noite em que tudo começou, ficou até tarde para corrigir um parecer sobre a compra de uma empresa de segurança privada. O escritório estava vazio, salvo o zumbido do ar condicionado e a luz azulada dos ecrãs em repouso. Ao sair, carregou no botão do elevador, mas a máquina não desceu para o rés-do-chão. Subiu. Parou no 17.º piso.
O 17.º piso não aparecia no directório.
As portas abriram-se para um corredor sem logótipos, com alcatifa preta e paredes forradas a painéis de madeira escura. Inês deveria ter carregado no botão de fechar. Em vez disso, ouviu uma voz aflita, abafada por uma porta entreaberta.
— Eu assinei porque me ameaçaram. Há relatórios falsos, transferências, nomes de magistrados…
A resposta foi baixa, masculina, quase carinhosa.
— Devia ter continuado calado, doutor Moura.
Seguiu-se um som seco, não exactamente um tiro, mas o ruído de algo pesado a cair. Inês levou a mão à boca. Através da fresta viu um homem no chão, a gravata manchada de escuro, e uma mulher de luvas cinzentas a recolher uma pen drive. Antes que pudesse recuar, a mulher virou a cabeça.
Não viu o rosto dela por completo. Viu apenas uma marca junto ao pulso: três pequenos círculos tatuados, como uma constelação.
Inês correu para o elevador. As portas fecharam-se no momento em que passos rápidos ecoaram no corredor. Quando chegou à garagem, já tremia tanto que deixou cair a pasta. Foi então que uma mão a apanhou.
— Está ferida? — perguntou Tomás Lacerda.
Tomás era o director financeiro da Atlântica & Nobre: trinta e seis anos, fato sempre impecável, sorriso raro e uma reputação de gelo. Inês conhecia-o de reuniões em que ele fazia perguntas capazes de desmontar uma sala inteira. Naquele instante, porém, não parecia gelo. Parecia medo.
Ela mentiu.
— Não. Foi só cansaço.
Tomás olhou para o indicador luminoso do elevador, ainda parado no 17.
— Então vá para casa e não fale com ninguém até amanhã.
A forma como disse «ninguém» fez Inês perceber duas coisas: ele sabia que o 17.º piso existia; e alguém, algures, já sabia que ela o descobrira.