Duarte apareceu dez minutos depois por uma janela lateral, rasgando a manga do casaco ao forçar a entrada. Trazia uma lanterna e um nervosismo que não parecia encenado.
— Inês!
Ela apontou-lhe a fotografia como se fosse uma arma.
— Foi você?
— O quê?
— Não me trate como parva. Ninguém sabia que eu vinha cá.
— Eu sabia. E quem vigia o meu telemóvel também.
A frase caiu entre os dois como pó. Duarte explicou que, meses antes, descobrira pagamentos falsos ligados a uma fundação cultural. Quando confrontou o conselho de administração, ofereceram-lhe uma promoção. Quando insistiu, ameaçaram a irmã dele, professora numa escola pública, com uma denúncia inventada. Vítor Salgado fora o intermediário: sorria, negociava, guardava cópias de tudo.
— Então porque discutia com ele?
— Porque ele queria vender os ficheiros ao mesmo grupo que nos está a ameaçar. Disse que a justiça era lenta e que o medo pagava mais depressa.
O cheiro a solvente tornou-se mais forte. Inês reparou numa lata aberta, caída junto à parede. Depois outra. E outra. Uma linha escura espalhava-se pelo chão, aproximando-se dos pés deles.
— Temos de sair — disse ela.
A porta continuava trancada. Duarte tentou arrombá-la, sem sucesso. Inês, com o coração a bater na garganta, começou a contar: uma janela, dois metros de altura, grade enferrujada; extintor a seis passos; palete de madeira a três. Saídas. Sempre saídas.
Enquanto Duarte batia na fechadura com uma barra de ferro, Inês subiu à palete e puxou a grade. As mãos tremeram, mas não parou. A cicatriz no pulso abriu ligeiramente, manchando-lhe a pele. Duarte viu.
— Inês...
— Não olhe. Empurre.
Conseguiram escapar segundos antes de uma chama nascer no interior do armazém, pequena e azul, depois enorme e laranja, devorando provas, paredes e o envelope. Na rua, deitados no chão, cobertos de fuligem, Inês riu-se. Um riso curto, histérico, vivo.
Duarte tocou-lhe no rosto, sem pedir mais do que permissão com os olhos.
Ela devia afastar-se. Mas havia anos que ninguém a olhava como se a sua ruína não fosse uma biografia inteira.
Beijaram-se com o incêndio a pintar-lhes a pele de vermelho.
No dia seguinte, a imprensa publicou uma notícia: “Testemunha do caso Cromaviva envolvida em incêndio suspeito”. O artigo incluía detalhes de Coimbra que nunca tinham sido públicos.
A assinatura era de uma jornalista famosa por destruir reputações em directo: Helena Mogo.
E Inês recebeu novo vídeo no telemóvel: uma gravação da sala “Âmbar”, segundos antes da morte de Vítor. A imagem mostrava Duarte a segurar uma faca.
Mas, no reflexo do vidro, atrás dele, via-se uma mulher de casaco azul.
A mãe de Duarte.