Na manhã seguinte, a Cromaviva era um circo discreto: jornalistas à porta, directores a fingirem choque, empregados a cochicharem nos elevadores. A polícia levou Duarte para interrogatório. Inês foi chamada como testemunha.
A inspetora Marta Seabra não tinha paciência para lágrimas nem para silêncios. Pousou duas fotografias na mesa: Vítor Salgado vivo, de fato cinzento; Vítor morto, com a boca entreaberta, como se ainda quisesse terminar uma frase.
— Viu o doutor Duarte atacar a vítima?
— Não.
— Viu mais alguém na sala?
Inês hesitou. A sombra. O acesso de serviço. A mensagem.
— Vi... movimento. Não consigo identificar.
Marta estreitou os olhos.
— A senhora sabe que omitir informação numa investigação de homicídio tem consequências.
Inês sabia. Também sabia que, há sete anos, omitira outra coisa: numa audição universitária em Coimbra, acusara um professor influente de manipular bolsas e destruir carreiras. O processo caiu, a imprensa esmagou-a, e alguém pintou a palavra “mentirosa” na porta do quarto dela. Desde então, a verdade, para Inês, tinha sempre um preço superior ao que ela podia pagar.
Ao sair da polícia, encontrou Duarte no passeio, libertado mas cercado por câmaras. O olhar dele prendeu-se ao dela. Não era gratidão nem acusação; era pedido.
— Posso falar consigo? — perguntou ele, afastando-se dos jornalistas.
— Não devia estar perto de mim.
— Também não devia estar vivo, se o que o Vítor descobriu for verdade.
Inês tentou passar, mas Duarte aproximou-se o suficiente para baixar a voz.
— Ele encontrou provas de que a Cromaviva está a lavar dinheiro através do Negro Sereia. Eu ia denunciá-los. Ele ia vender as provas a alguém.
— E quer que eu acredite nisso porque sim?
— Não. Quero que veja os ficheiros que ele deixou escondidos.
— Porquê eu?
Duarte olhou para o relógio largo no pulso dela, onde a cicatriz mal se adivinhava.
— Porque é auditora. E porque não parece pessoa que consiga dormir quando os números gritam.
Inês devia ter ido embora. Devia ter bloqueado o número desconhecido, pedido baixa, desaparecido outra vez. Em vez disso, aceitou encontrar-se com Duarte nessa noite, num arquivo antigo da empresa em Marvila.
Quando chegou, a porta estava aberta. Lá dentro, entre latas de tinta descontinuada, havia um envelope com o nome dela escrito a marcador preto.
Dentro, uma fotografia de Coimbra: Inês, mais nova, a sair do tribunal, rosto desfeito pela vergonha.
No verso, uma frase:
“A primeira lição foi o silêncio. A segunda será a culpa.”
E, ao fundo do armazém, ouviu-se um clique metálico. Alguém trancara a porta por fora.