Na Torre Atlântica, em Lisboa, todos sabiam que o 17.º piso da Cromaviva não era um escritório: era um aquário. Paredes de vidro, salas com nomes de pigmentos, luz branca a cair sobre secretárias impecáveis e pessoas que sorriam como se não tivessem dívidas, rancores ou medo.
Inês Valente trabalhava ali há três meses como auditora interna. Tinha vinte e nove anos, uma cicatriz fina no pulso esquerdo — que escondia com relógios largos — e a mania de contar saídas de emergência sempre que entrava num edifício. Era eficiente, calada e suficientemente invisível para ouvir o que os outros diziam quando pensavam que ela era apenas parte da mobília.
Naquela quinta-feira, ficou até tarde a rever contratos de fornecimento de um pigmento raro, o Negro Sereia, usado numa nova linha de tintas ecológicas. Os números não batiam certo: fornecedores fantasma, transportes duplicados, uma assinatura digital feita a partir de um computador que, segundo o registo, estava desligado.
Às 22h14, quando Lisboa já era um reflexo húmido nas janelas, Inês viu movimento na sala “Âmbar”, do outro lado do corredor de vidro. Duarte Lacerda, director de operações, discutia com um homem que ela reconheceu das fotografias dos dossiês: Vítor Salgado, consultor externo e antigo advogado da empresa. Duarte era novo para o cargo, demasiado sério para o mundo das festas corporativas, e tinha aquele tipo de beleza cansada que fazia as pessoas confiar nele antes de ele abrir a boca.
Inês não ouviu palavras. Viu apenas gestos: Vítor a bater com uma pasta na mesa; Duarte a recuar; uma sombra junto à porta. Depois, a luz da sala tremeluziu e Vítor caiu contra o vidro, com a mão aberta, deixando um rasto escuro na transparência.
Sangue.
Inês levou a mão à boca. A sombra saiu da sala pelo acesso de serviço. Duarte ficou imóvel, olhando para o corpo como se tivesse sido ele a morrer.
O telemóvel dela vibrou nesse instante. Número desconhecido.
“Se disseres o que viste, todos saberão porque fugiste de Coimbra.”
Inês apagou a mensagem por reflexo, mas já era tarde. A ameaça tinha aberto uma porta que ela jurara nunca mais atravessar.
Quando os seguranças subiram, encontraram-na ajoelhada no corredor, incapaz de explicar porque não ligara antes para o 112. E encontraram Duarte com a camisa manchada, a mão ensanguentada e uma frase absurda nos lábios:
— Eu não o matei. Mas talvez o quisesse morto.