Duarte apagou as luzes. Celeste empurrou Inês para a despensa e entregou-lhe uma pen com a mão a tremer.
— Se eles entrarem, foge pelo telhado. Não escolhas o amor antes da verdade, menina. O amor sem verdade é só outra prisão.
Inês nem teve tempo de perguntar o que aquilo significava.
A porta foi arrombada.
Seguiram-se segundos fragmentados: passos pesados, um disparo abafado, vidro a partir-se, Duarte a lutar com dois homens no escuro. Inês subiu por uma clarabóia estreita, rasgando a blusa e a pele, e atravessou os telhados húmidos com a pen apertada entre os dentes.
Só parou quando chegou ao miradouro, de onde via a cidade acesa e indiferente. Ligou a pen ao telemóvel com um adaptador que usava para apresentações. Esperava encontrar imagens de segurança. Encontrou vídeos, transferências bancárias e depoimentos gravados de pacientes. Mas o ficheiro principal tinha o nome “VEREDICTO”.
Carregou.
No vídeo, Rui Falcão, o segurança, aparecia sentado diante de uma parede branca.
“Se estão a ver isto, é porque a doutora Valente chegou mais longe do que eu. A Auriga comprou resultados, médicos e silêncio. Mas o pior não é o medicamento. O pior é a Comissão de Revisão: juízes aposentados, peritos e jornalistas pagos para fabricar absolvições públicas. Chamam-lhe O Veredicto. Decidem quem é culpado antes de haver julgamento.”
Inês gelou.
No final do vídeo, Rui acrescentava:
“Duarte Sobral não é inocente. Mas é a única pessoa lá dentro que tentou abrir a porta.”
Uma mão agarrou-lhe o ombro. Inês rodou, pronta para gritar, mas era Duarte, com sangue no lábio e o casaco rasgado.
— A Celeste? — perguntou ela.
Ele baixou o olhar.
A resposta caiu entre ambos sem palavras.
Inês sentiu algo duro nascer dentro dela. Não era coragem. Era uma fúria limpa, quase calma.
— Vamos publicar tudo — disse Duarte.
— Não. Eles vão chamar-nos falsificadores. Vão inventar amantes, dívidas, doença mental. Vão transformar a verdade numa opinião.
— Então o que queres fazer?
Inês olhou para a Torre Lúmen ao longe. No dia seguinte, haveria a gala anual da Auriga, transmitida em directo, com ministros, investidores e a imprensa inteira.
— Quero dar-lhes uma lição no palco deles.
Duarte fitou-a com uma estranha mistura de admiração e medo.
— Isso é suicídio.
— Não. Suicídio é continuar a obedecer.
Ele aproximou-se, devagar.
— Inês, há outra coisa. A tua cicatriz… a minha mãe deixou uma fotografia. Tu e eu estivemos juntos no autocarro. Eu tirei-te pela janela antes da explosão.
Inês lembrou-se então de um detalhe impossível: mãos de rapaz, cheiro a fumo, uma voz a dizer “não adormeças”.
O coração traiu-a.
— Se me salvaste uma vez — murmurou ela — não julgues que isso te dá o direito de decidir por mim agora.
Duarte sorriu, triste.
— Nunca tive esse direito.
Atrás deles, as sirenes começaram a subir a colina.