Inês correu para o elevador antes que alguém a visse por completo, mas as portas demoraram uma eternidade a fechar. Quando finalmente desceu, tinha no telemóvel uma fotografia tremida da sala e a certeza de que, se a mostrasse à polícia errada, desapareceria antes do amanhecer.
No átrio, Duarte esperava-a.
— Não devia ter subido — disse ele.
Inês segurou as chaves entre os dedos como se fossem uma arma.
— E o senhor não devia estar ao lado de um homem morto.
— Ele ainda estava vivo quando saíste.
A frase quebrou-a. “Saíste”, não “saiu”. Duarte sabia que fora ela. Talvez sempre tivesse sabido onde ela estava.
— Vou entregar tudo — disse Inês.
— A quem? Ao inspector que janta com a Leonor? Ao procurador cuja campanha ela financiou? — Duarte aproximou-se um passo, sem levantar as mãos. — Se fizeres isso sozinha, amanhã és tu a mulher desequilibrada que falsificou documentos para chantagear a empresa.
Inês riu-se, seca.
— E o senhor é o quê? O meu salvador?
— Sou o homem que a quer tirar viva daqui.
Ela odiou a forma como acreditou nele por meio segundo.
Duarte levou-a para a garagem, não no seu carro oficial, mas num velho Volvo cinzento que cheirava a tabaco antigo e chuva. Durante o trajecto até Alfama, explicou pouco. Disse apenas que a Auriga não estava a esconder um erro médico, mas uma rede de ensaios ilegais feita com doentes vulneráveis em clínicas privadas. Helena Mota tentara denunciar tudo. O segurança morto, Rui Falcão, tinha copiado imagens do piso treze.
— E o senhor sabia? — perguntou Inês.
Duarte manteve os olhos na estrada.
— Sabia partes. Não sabia que matavam pessoas.
— Que conveniente.
Pararam junto a um prédio velho. No terceiro andar, uma mulher idosa abriu a porta antes de baterem. Chamava-se Celeste e tratou Duarte por “menino”, o que desconcertou Inês mais do que qualquer ameaça.
Celeste examinou a cicatriz no pulso de Inês e empalideceu.
— Então era verdade — murmurou. — A menina da Carris sobreviveu.
Inês sentiu o mundo inclinar-se.
— Que menina?
Duarte fechou os olhos, como se tivesse passado anos a evitar aquele momento.
— Há vinte e dois anos, um autocarro ardeu na Avenida de Roma. Morreram seis pessoas. A tua mãe estava nele. A minha também.
Inês recuou.
— Eu não me lembro de nada.
— Porque alguém pagou para que não te lembrasses.
Celeste trouxe uma caixa metálica. Lá dentro havia recortes de jornal, fotografias de crianças feridas e um relatório médico com o nome de Inês: “amnésia traumática induzida por sedação prolongada”. No canto inferior, uma assinatura: Leonor Vaz.
Inês olhou para Duarte, a respiração curta.
— A Leonor matou a minha mãe?
— A Leonor começou a carreira a ocultar aquele desastre. Hoje faz o mesmo, mas com laboratórios inteiros.
Antes que Inês respondesse, o telemóvel de Duarte vibrou. No ecrã surgiu uma mensagem sem remetente: “Entrega a rapariga até às 03:00 ou a velha morre primeiro.”
No corredor, ouviu-se o elevador parar.