Na Torre Lúmen, em Lisboa, havia doze pisos oficiais e um décimo terceiro que não aparecia nos folhetos da empresa. Chamavam-lhe apenas “Arquivo Técnico”, embora todos soubessem que ali se guardavam os contratos que não deviam ser lidos duas vezes.
Inês Valente trabalhava no décimo segundo, no departamento jurídico da Auriga Biotech, uma farmacêutica elogiada em conferências, fotografada ao lado de ministros e premiada por “inovação ética”. Tinha vinte e nove anos, sapatos discretos, cabelo preso sem vaidade e a capacidade rara de entrar numa sala sem que os homens importantes baixassem a voz.
Era por isso que a mantinham. Uma pessoa invisível era útil.
Naquela sexta-feira, Inês ficou depois da meia-noite a rever uma pasta de ensaios clínicos suspensos. Havia números trocados, datas que não batiam certo e um nome repetido em documentos que deveriam ser independentes: Helena Mota, paciente 41-B, falecida antes da autorização final do medicamento.
Quando o elevador parou sozinho no piso treze, Inês pensou que fosse uma falha eléctrica. As portas abriram-se para um corredor de luz azulada, frio, demasiado limpo. Antes de carregar no botão para descer, ouviu vozes.
— Se isto chega ao conselho, acabou — disse uma mulher.
— Não chega — respondeu um homem. — A testemunha já assinou a retractação.
Inês reconheceu a segunda voz. Duarte Sobral, director financeiro da Auriga, o homem de fato impecável que nunca sorria nas festas e que, na reunião da semana anterior, a tinha defendido quando um sócio sénior a tratara como estagiária.
A primeira voz era de Leonor Vaz, presidente executiva da empresa.
Inês aproximou-se da porta entreaberta. Viu uma mesa de vidro, uma pasta preta, um telemóvel a gravar e, no centro da sala, um funcionário da segurança caído no chão, com sangue junto à têmpora.
Levou a mão à boca para não gritar. Nesse gesto, a manga da blusa subiu e deixou à mostra a marca no pulso esquerdo: uma cicatriz antiga em forma de meia-lua, herdada de um acidente de infância que ela nunca conseguira lembrar.
Duarte virou-se de repente, como se tivesse sentido a presença dela.
Os olhos dele prenderam-se na cicatriz.
E, pela primeira vez desde que Inês o conhecia, Duarte pareceu assustado.