A notícia espalhou-se antes da polícia chegar: “Consultora e director encontrados junto a administrador esfaqueado.” Os jornais não precisavam de provas quando tinham rostos bonitos, cargos altos e uma história antiga de escândalo familiar. Ao meio-dia, Madalena já era outra vez “a filha do corrupto”. Tomás era “o executivo ambicioso”. Juntos, eram o romance proibido que a internet inventara antes mesmo de eles saberem o que sentiam.
Helena Moura interrogou-os separadamente. Madalena contou quase tudo, excepto a pen. Não por desconfiar de Helena, mas porque já aprendera que a verdade, quando passa por demasiadas mãos, chega ao tribunal sem dentes.
Ao fim da tarde, Tomás esperava-a no parque subterrâneo.
— Não podemos ficar aqui — disse ele.
— A fugir parecemos culpados.
— A ficar, acabamos mortos.
Ela quis discutir, mas nesse instante recebeu uma chamada do hospital. Artur Sequeira acordara e pedira para falar com ela. Só com ela.
No quarto, Artur parecia dez anos mais velho. Tinha a boca seca, os olhos inundados de pânico.
— Fui eu que assinei as transferências — confessou. — Mas não fui eu que as ordenei.
— Quem ordenou?
Artur chorou sem som.
— A presidente do conselho. Clarisse Lobo. Ela criou o fundo solidário para lavar dinheiro de contratos municipais. O seu pai descobriu. Tentou denunciá-la.
Madalena sentiu o mundo inclinar-se.
— E a pasta?
— Tinha cópias. Provas. Clarisse mandou recuperá-la. Depois comprou jornalistas, peritos, até uma testemunha falsa.
— Quem era o homem do elevador?
Artur olhou para Tomás, que ficara à porta.
— Ele viu Clarisse sair pelo acesso técnico. Tentou falar. Eu ajudei a apagar o depoimento.
Madalena virou-se para Tomás. Ele não baixou os olhos.
— Devia ter vindo ter comigo — disse ela.
— Eu tinha vinte e dois anos e uma mãe no hospital. Fui cobarde.
— Sim — respondeu Madalena. — Mas está aqui agora.
Artur agarrou-lhe o pulso com uma força inesperada.
— A chave de encriptação está numa coisa que Clarisse nunca destrói: a vaidade dela. Procurem o discurso do prémio Horizonte. A primeira versão.
Nessa noite, escondidos no antigo escritório do pai de Madalena, ela e Tomás vasculharam arquivos públicos, gravações, fotografias de galas. A proximidade tornou-se inevitável: dedos que se tocavam no teclado, respirações presas, a intimidade estranha de duas pessoas a partilhar ruínas.
Encontraram o vídeo. Clarisse Lobo, no palco, a agradecer financiadores. Na legenda interna do ficheiro, uma sequência de iniciais e datas. Tomás introduziu-a. A pen abriu.
Lá dentro havia contratos paralelos, gravações de chamadas, transferências e uma lista de pagamentos a magistrados, jornalistas e políticos locais. Mas havia também um ficheiro de vídeo chamado “PISO17_FINAL”.
Madalena carregou em reproduzir.
A imagem tremida mostrava o elevador a abrir. O pai dela surgia confuso, sem pasta. Segundos depois, Clarisse aparecia pelo acesso técnico, pasta na mão. E atrás dela, Tomás, jovem, assustado, a ver tudo.
Madalena levou a mão à boca. Era a absolvição do pai. Era a condenação de Clarisse. Era também a prova de que Tomás guardara seis anos de silêncio.
— Madalena... — começou ele.
Ela afastou-se.
— Não me toque.
Nesse momento, o ecrã ficou negro. Uma janela abriu-se sozinha: “Obrigada por encontrarem o que me faltava.”
A porta do escritório destrancou-se com um clique remoto.
Do corredor veio a voz calma de Clarisse Lobo:
— Sempre achei que o amor tornava as pessoas previsíveis.