Fugiram pela escada de serviço.
Duarte conhecia os ângulos mortos das câmaras. Inês conhecia portas que nenhum executivo imaginava existir. Juntos atravessaram a Torre Âmbar como ladrões dentro da própria casa. No piso quatro, um segurança apareceu de repente. Inês empurrou um carrinho de caixas contra ele e Duarte puxou-a pelo braço antes que ela percebesse que tinha acabado de atacar um homem com facturas de 2018.
Saíram para a chuva por uma porta de cargas.
— Tenho um sítio seguro — disse Duarte.
— Toda a gente que diz isso nos filmes está a levar alguém para a morte.
— Então escolha: morte com tecto ou morte ao relento.
Ela devia odiá-lo. Era arrogante, perigoso, demasiado habituado a mandar. Mas havia algo nele que a irritava ainda mais: quando corria, nunca largava a mão dela.
O sítio seguro era um apartamento vazio em Campo de Ourique, herdado da avó. Não tinha televisão, internet nem fotografias. Apenas livros jurídicos, uma chaleira e uma mesa grande coberta por processos. Inês reparou num recorte de jornal antigo: “Professor acusado nega favorecimento em colégio privado”. O nome do pai dela aparecia no subtítulo.
— Porque tem isto? — perguntou, com a voz a quebrar antes de conseguir travá-la.
Duarte ficou pálido.
— Inês...
— Porque tem a notícia do meu pai?
Ele não respondeu depressa o suficiente.
Ela recuou.
— Foi você.
— Eu era advogado júnior. Não conduzi o processo.
— Mas estava lá.
— Estava. E vi provas que pareciam sólidas. Mais tarde percebi que tinham sido fabricadas por uma consultora de reputação. A mesma que depois ajudou a fundar a Nébula.
Inês sentiu o quarto inclinar-se. O pai não morrera apenas de vergonha. Morrera porque um sistema precisava de demonstrar eficiência. Precisava de culpados estatisticamente convenientes.
— Porque nunca disse nada?
— Porque fui cobarde. Porque aceitei uma promoção. Porque pensei que podia compensar por dentro. — Duarte respirou fundo. — Marta descobriu a ligação. Foi por isso que me contactou. Ia entregar tudo: o Oráculo, os interrogatórios, os casos antigos. Incluindo o do seu pai.
A raiva de Inês tinha muitos anos e finalmente encontrara um rosto. Ela deu-lhe uma bofetada. O som ficou suspenso entre ambos.
Duarte não se defendeu.
— Merecia pior — disse.
— Merece ficar sozinho.
— Sim.
Ela dirigiu-se à porta, mas a fechadura electrónica emitiu um clique. Trancada. No mesmo instante, a chaleira começou a apitar sozinha, embora ninguém a tivesse ligado.
No vidro da janela, embaciado pela chuva, apareceu a mesma marca negra: círculo, três linhas.
Inês aproximou-se e viu que não estava desenhada por fora. Estava reflectida.
Virou-se.
Na estante, entre dois códigos penais, havia uma pequena câmara escondida, com uma luz vermelha a piscar.
A voz que saiu do altifalante era feminina, rouca, quase divertida.
— Meninos aplicados. Estão prontos para a lição final?
Duarte arrancou a câmara da parede, mas antes que a destruísse, a voz acrescentou:
— A Marta ainda respira. Por enquanto.