Na manhã seguinte, Marta Sampaio foi dada como desaparecida. A versão oficial, enviada por email a toda a empresa, dizia que a directora de ética tinha pedido uma licença urgente por “motivos familiares”. O texto vinha assinado por Duarte Alvim.
Inês leu a mensagem três vezes. Depois procurou as gravações restauradas. Tinham desaparecido do servidor. O pedido de recuperação também. O sistema indicava que ela nunca tinha entrado naquela sala depois das dezoito horas.
Mas a marca no vidro continuava lá.
Ninguém a via, porque ninguém olhava para as divisórias foscas do corredor técnico. Inês fotografou-a com o telemóvel. A imagem saiu desfocada na primeira tentativa, como se a marca se recusasse a ser capturada. À segunda, conseguiu: círculo, três linhas, batom negro.
Ao almoço, ouviu dois consultores comentarem que Marta andava “instável”. Uma directora disse que já se esperava. Um estagiário jurou que a vira discutir com um homem no parque de estacionamento. A história mudava a cada boca.
Ao fim da tarde, Duarte apareceu no arquivo.
Não era sítio para directores jurídicos. O arquivo cheirava a papel velho, pó electrónico e café requentado. As lâmpadas tremiam. Inês estava de pé, junto a uma estante de contratos antigos, com a fotografia da marca aberta no ecrã do telemóvel.
— Preciso de falar consigo — disse ele.
— Sobre a licença da doutora Marta?
Duarte fechou a porta.
— Sobre a mentira que acabou de ouvir.
Inês ficou imóvel.
— Não fui eu que escrevi aquele email — continuou ele. — Usaram a minha assinatura digital. E antes que pergunte: sim, sei que ela esteve consigo ontem.
— Como sabe?
— Porque ela me enviou uma mensagem às dezoito e trinta e oito. Dizia: “Se eu falhar, a arquivista viu o primeiro pecado.”
Inês sentiu o sangue afastar-se-lhe das mãos.
— E quer que eu acredite que veio ajudar-me?
— Não. Quero que me diga o que viu, para eu decidir se ainda há tempo de a manter viva.
A frase devia tê-la assustado. Assustou. Mas assustou-a menos do que a sinceridade nos olhos dele. Duarte parecia um homem que passara a vida a construir paredes e acabara de perceber que estava preso dentro delas.
Inês contou-lhe apenas metade: os vídeos, a sala de formação, o homem amarrado, a mulher ruiva. Omitiu a frase “não confies no Duarte Alvim” e a marca no vidro.
Duarte ouviu sem interromper.
— Há três anos — disse ele por fim —, a Nébula vendeu um programa chamado Oráculo Cívico a várias câmaras municipais. O sistema atribuía pontuações de risco a cidadãos: probabilidade de incumprimento, conflito laboral, fraude, reincidência. O que ninguém sabia era que o algoritmo era alimentado por interrogatórios ilegais feitos a funcionários, devedores e activistas. Chamavam-lhes sessões de aprendizagem.
— “Ensino” — murmurou Inês.
— Exacto.
— E Marta descobriu?
— Marta ia depor amanhã numa comissão parlamentar à porta fechada. Alguém a impediu.
Nesse instante, o telemóvel de Inês vibrou.
Mensagem de número desconhecido:
“SE QUERES SABER ONDE ELA ESTÁ, PERGUNTA AO HOMEM QUE GANHA TODOS OS VEREDICTOS.”
Inês levantou os olhos para Duarte.
Ele também tinha recebido uma mensagem. Mostrou-lha.
“ELA JÁ TE VIU. APAGA A ARQUIVISTA.”
Por um momento, não foram inimigos nem aliados. Foram duas pessoas encurraladas pela mesma sombra.
Então, no corredor, alguém começou a assobiar uma canção infantil. Lenta. Afinada. Próxima.