Nessa noite, Inês voltou ao seu pequeno apartamento em Almada convencida de que estava a ser seguida. Um carro cinzento apareceu no retrovisor do autocarro, depois na rua, depois desapareceu junto à farmácia. Talvez fosse medo. Talvez fosse aviso.
Em casa, ligou o computador antigo que usava para projectos pessoais. Procurou backups automáticos, caches, restos do e-mail apagado. Durante horas, nada. Às 2h13, quando quase desistia, encontrou uma miniatura de anexo gravada numa pasta temporária. O ficheiro estava corrompido, mas tinha metadados: “VEREDICTO_FINAL”, criado por “MSanches”, modificado por “RMoniz”, partilhado com “TLacerda” sete minutos antes da reunião.
Não era prova suficiente. Mas era uma porta.
Inês escreveu a Leonor Sá de uma conta anónima e marcou encontro numa igreja abandonada transformada em centro cultural, em Marvila, onde naquela semana decorria uma exposição de pintura antiga. O tema era “Mulheres Observadas”, retratos de aristocratas, serviçais e desconhecidas que tinham sobrevivido aos nomes dos homens que as pintaram.
Leonor chegou sozinha. Ou pareceu.
— Preciso de saber se posso confiar em si — disse Inês.
— Não pode. Mas pode confiar no interesse que tenho em ganhar este caso.
A honestidade desarmou-a.
Inês mostrou os metadados. Leonor analisou-os sem emoção.
— Isto abre uma linha de defesa. Mas precisamos do ficheiro inteiro.
— Tomás sabe onde está?
A advogada hesitou.
— Ele diz que existe uma cópia física.
— Física? De um ficheiro?
— Um dispositivo escondido dentro de uma moldura. Uma peça que a Asterion comprou há meses num leilão privado.
Leonor apontou para uma pintura ao fundo da sala: uma mulher do século XIX segurando uma pequena lontra branca. O título dizia: “Senhora com o Animal de Inverno”.
— Essa obra pertencia ao fundador da Asterion. Foi vendida, desapareceu e reapareceu nesta exposição através de um patrocínio da empresa.
Inês sentiu o mundo estreitar-se.
— Está a dizer-me que a prova está num quadro exposto ao público?
— Estou a dizer que Tomás, antes de ser detido, fez o que qualquer bom financeiro faz: colocou o valor onde ninguém o procuraria.
Um estalo ecoou junto à entrada. Alguém deixara cair um catálogo. Inês virou-se a tempo de ver um homem de fato escuro afastar-se rapidamente.
Leonor fechou a pasta.
— Temos menos tempo do que pensávamos.
Nessa mesma madrugada, a exposição foi assaltada. Levaram apenas uma peça: “Senhora com o Animal de Inverno”.