Na manhã seguinte, a Asterion tinha câmaras de televisão à porta. Tomás Lacerda fora detido por suspeitas de desvio de fundos, falsificação de relatórios e suborno. Os jornais chamavam-lhe “o arquitecto da maior fraude tecnológica da década”. Marta Sanches apareceu ao lado da polícia, com rosto grave e voz embargada, prometendo limpar a empresa “de qualquer sombra”.
Inês viu tudo no ecrã da copa, entre colegas que comentavam como se assistissem a uma série.
— Sempre achei que ele era demasiado perfeito — disse alguém.
— Um homem daqueles nunca cai sozinho — respondeu outra voz.
Inês apertou o copo de papel até o café lhe queimar os dedos. Podia falar. Devia falar. Mas o que tinha, concretamente? Vozes atrás de vidro, sombras, um envelope. E um e-mail que desaparecera da sua caixa durante a madrugada.
Ao meio-dia, foi chamada ao gabinete de Marta.
A presidente executiva estava sentada diante de uma janela imensa. Usava branco, como se a inocência também se vestisse por medida.
— Inês, não é? Da auditoria interna.
— Sim.
— Soube que esteve a trabalhar até tarde ontem.
A frase foi dita com doçura, mas Inês sentiu-a como uma faca encostada à pele.
— Tive de fechar relatórios.
Marta sorriu.
— Gosto de mulheres discretas. Chegam longe. As que confundem coragem com imprudência, nem tanto.
Depois, empurrou uma pasta pela mesa. Lá dentro havia uma proposta de transferência para a delegação de Madrid, aumento de salário, alojamento pago e uma cláusula de confidencialidade de cinco anos.
— Pense nisto como uma promoção — disse Marta.
— E se eu não aceitar?
O sorriso desapareceu.
— Então pensaremos noutra coisa.
Inês saiu com a pasta colada ao peito. No elevador, as portas abriram no piso menos dois. Entrou uma mulher de cabelo grisalho, gabardina azul e olhar cansado. Não parecia pertencer ao edifício.
— Inês Vale? — perguntou.
Inês gelou.
— Quem é a senhora?
— Leonor Sá. Advogada de defesa de Tomás Lacerda. Ele pediu-me que a encontrasse.
— Eu não tenho nada para dizer.
— Tem, sim. Só ainda não sabe quanto vale.
Inês encarou-a. A advogada baixou a voz.
— O Tomás disse-me uma coisa estranha: “Digam à rapariga da meia-lua que o ficheiro não está morto.”
As portas do elevador fecharam-se antes de Inês conseguir respirar.