O incêndio era falso, mas o medo era real. O sistema de sprinklers disparou no arquivo morto, ensopando contratos, facturas e anos de segredos cuidadosamente empilhados. Duarte e Inês chegaram ao gabinete dele segundos depois de a porta ser forçada por dentro. A gaveta estava aberta. A pen desaparecera.
No chão, porém, havia um fragmento de papel colado à água: uma guia de transporte com um carimbo antigo, “Porto de Lisboa — Armazém 17”, datada da noite em que o pai de Inês fora acusado. No verso, um nome escrito à mão: “M. Cerdeira”.
Marta Cerdeira era a directora financeira da Atlas & Moura. Elegante, impecável, conhecida por entrar em reuniões como quem entra num palco. Também era a pessoa que, nessa manhã, apresentava os números da campanha de defesa de Álvaro Nobre.
Inês quis confrontá-la de imediato. Duarte travou-a.
— Se ela nos viu encontrar isto, já está à nossa espera.
— Estou cansada de esperar.
— E eu estou cansado de enterrar pessoas.
A frase caiu entre ambos com uma intimidade inesperada. Inês percebeu que a raiva dele não era contra ela. Era contra o tempo, contra as versões oficiais, contra a família que não soubera salvar. E, sem saber porquê, tocou-lhe na mão. Um gesto curto, quase acidental. Duarte olhou para os dedos dela como se aquilo fosse uma promessa perigosa.
Na manhã seguinte, o tribunal estava cercado por câmaras. Álvaro Nobre chegou sorridente, distribuindo cumprimentos. Usava uma gravata azul e uma calma fabricada. Quando passou por Inês, parou.
— A menina Vale. Cresceu.
Ela sentiu o sangue gelar.
— Então lembra-se de mim.
— Lembro-me de muitas tragédias. Apoiei tantas famílias...
— A minha não.
O sorriso dele manteve-se, mas os olhos endureceram. — Cuidado com o que pensa recordar. A memória é uma artista pouco fiável.
Durante a audiência, a acusação parecia frágil. Sem a pen, sem o quadro, sem testemunha directa, tudo se reduzia a suposições. Marta Cerdeira testemunhou com voz limpa: confirmou que a Atlas apenas prestava serviços de comunicação e que Álvaro era vítima de uma perseguição motivada por inveja social. A imprensa anotou cada palavra.
Duarte, presente como consultor, passou a Inês um papel por baixo da mesa: “Ela está a mentir sobre o armazém. Repara na data.”
Inês olhou para a guia molhada. O carimbo indicava 14 de Maio. Marta acabara de afirmar que, nesse dia, estava em Madrid numa conferência. Mas Inês lembrava-se de um perfume adocicado no armazém. O mesmo perfume que Marta usava naquele momento, forte, inconfundível, quase sufocante.
A juíza preparava-se para suspender a sessão quando as portas se abriram. Um homem idoso, curvado, entrou apoiado numa bengala. Trazia um envelope pardo. Os oficiais tentaram impedi-lo, mas ele gritou:
— Eu fui guarda no Armazém 17! E tenho a chave que abre esta mentira!
Álvaro levantou-se pela primeira vez sem sorrir.
Marta ficou pálida.
Inês reconheceu a voz antes do rosto: era o homem que, anos antes, lhe dera água no hospital e lhe dissera para nunca mencionar as luvas de pele.