Conversaram na sala de reuniões pequena, a única sem câmaras visíveis. Inês manteve a mala no colo, como se pudesse fugir dali a qualquer momento. Duarte fechou a porta e pousou o telemóvel virado para baixo.
— Porque é que o meu nome está ligado a este caso? — perguntou ela.
— Porque o seu pai trabalhou no transporte de várias obras de arte antes de desaparecer.
— Não desapareceu. Foi acusado de roubo, perseguido pela imprensa e morreu antes de se defender.
Duarte não desviou o olhar. Isso irritou-a. A maioria das pessoas desviava.
— Eu sei — respondeu ele. — E também sei que o processo foi construído sobre uma testemunha anónima.
Inês sentiu o estômago fechar-se. Durante anos, a mãe repetira que era melhor não falar do passado. Depois morrera, deixando uma caixa de recibos, recortes e um bilhete: “A verdade está onde ninguém ousa olhar.” Inês estudara comunicação, aceitara empregos pequenos, esperara. A Atlas & Moura era o seu caminho para dentro do cofre.
— A sua firma defende Álvaro Nobre — disse ela.
— A minha firma gere a imagem dele. Eu estou responsável por avaliar risco jurídico.
— Diferença conveniente.
Duarte aproximou uma pasta. Dentro, havia outra fotografia: Inês com oito anos, à saída de um hospital, a cicatriz ainda recente. Ela levantou-se de súbito.
— Quem lhe deu isto?
— Alguém que também me enviou provas. A cicatriz não foi de um acidente doméstico, pois não?
O silêncio dela respondeu primeiro. Depois, a voz saiu-lhe mais baixa:
— Eu estava no armazém quando houve o incêndio. Lembro-me de um cheiro a verniz e de uma música antiga num rádio. Lembro-me do meu pai a gritar para eu correr. Lembro-me de um homem com luvas de pele. Mas era criança. Ninguém quis ouvir.
Duarte encostou-se à mesa, como se aquilo confirmasse o pior.
— Há uma audiência preliminar amanhã. Se o quadro aparecer, o julgamento muda. Se aparecer uma testemunha presencial, Álvaro Nobre deixa de controlar a narrativa.
— E porque é que eu haveria de confiar em si?
Ele hesitou. Foi a primeira falha na armadura.
— Porque a testemunha anónima que destruiu o seu pai era o meu irmão.
Inês ficou imóvel. A chuva continuava a bater no vidro, mas agora parecia vir de dentro da sala.
Duarte explicou: Tomás Sampaio, antigo assistente de Álvaro, morrera há dois meses num acidente de mota. Antes de morrer, deixara uma pen com ficheiros encriptados e uma frase: “Eu menti por medo.” Duarte entrara na Atlas & Moura para chegar ao centro da operação, não para proteger o mecenas.
— Está a dizer que quer limpar o nome do seu irmão limpando o nome do meu pai? — perguntou Inês.
— Estou a dizer que talvez os dois tenham sido usados.
Ela queria odiá-lo. Era mais simples. Mas havia no rosto dele uma culpa antiga, uma tristeza que não parecia ensaiada. E Inês conhecia bem as marcas que a vergonha deixa nas pessoas.
Nesse instante, as luzes do quinto andar apagaram-se. O alarme de incêndio começou a tocar.
No corredor, alguém corria com passos leves.
Duarte agarrou-lhe no braço. — A pen está no meu gabinete.
— Então alguém veio buscá-la.