Quando Inês Vale entrou no átrio da Torre Miradouro, a chuva batia nos vidros como dedos impacientes. Tinha vinte e sete anos, um casaco demasiado fino para Novembro e uma cicatriz fina junto à clavícula, quase sempre escondida por lenços. Não era vaidade: era memória. E em Lisboa, ela aprendera que a memória, quando aparece no sítio errado, pode custar uma carreira.
A empresa chamava-se Atlas & Moura, consultora de reputação para políticos, artistas e marcas que sorriam em outdoors. Na recepção, deram-lhe um cartão provisório e disseram-lhe que a sua secretária ficava no quinto andar, junto ao departamento de crise. “É onde se apagam incêndios”, brincou a assistente. Inês sorriu, mas não respondeu. Ela não procurava apagar incêndios. Procurava descobrir quem tinha ateado um, anos antes, na vida do seu pai.
No open space, entre ecrãs azuis e cafés abandonados, apareceu Duarte Sampaio. Trinta e poucos, fato cinzento, olhar de quem lê as pessoas antes dos documentos. Era advogado interno da firma e tinha fama de ganhar reuniões sem levantar a voz.
— Inês Vale? — perguntou, estendendo a mão. — Assinou confidencialidade?
— Antes de saber onde ficava a casa de banho.
Ele deixou escapar um sorriso breve. — Então já percebeu como funcionamos.
O primeiro dossiê que lhe entregaram tinha uma capa preta e uma etiqueta sem nome: “Projecto Arminho”. Dentro havia referências a uma colecção de arte desaparecida durante a guerra, a um quadro conhecido apenas como A Dama do Véu Branco e a um julgamento mediático que começaria dali a três semanas. O acusado era Álvaro Nobre, mecenas, coleccionador, benemérito, rosto de campanhas contra a pobreza. O tipo de homem que os jornais chamavam “intocável”.
Inês folheou as páginas até encontrar uma fotografia antiga. Um armazém na margem sul. Caixotes. Um homem de costas. E, no canto inferior, quase invisível, a mão de uma criança agarrada a uma manga de camisa.
A cicatriz junto à clavícula começou a arder-lhe.
Nessa noite, quando todos saíram, ela ficou no quinto andar a digitalizar documentos. O sistema bloqueou de repente. No ecrã surgiu uma mensagem sem remetente: “SE QUERES SABER O QUE ACONTECEU AO TEU PAI, NÃO CONFIES NO ADVOGADO.”
Atrás dela, a porta abriu-se.
Duarte entrou, molhado da chuva, e viu a frase antes de ela a conseguir apagar.
— Inês — disse, sem surpresa suficiente. — Temos de conversar.