Tomás Varela não se parecia com uma ameaça. Tinha barba curta, camisa amarrotada e mãos de quem sabia tocar em coisas antigas sem as partir. Beatriz encontrou-o numa sala de audiências vazia, dois dias antes da primeira sessão preliminar. Ele estava sentado no banco das testemunhas, como se ensaiasse a própria condenação.
— Doutora Lemos — disse ele, sem se levantar. — Disseram-me que vinha tentar desacreditar-me.
— Disseram-lhe mal. Eu venho descobrir se merece ser acreditado.
Tomás sorriu, mas os olhos mantiveram-se tristes.
— É mais perigoso.
Beatriz abriu o gravador, pousou o bloco e começou com perguntas técnicas. Datas, análises, cadeias de custódia. Tomás respondia com precisão, mas deixava sempre um espaço antes de cada frase, como se escolhesse não apenas palavras, mas consequências.
— Porque desapareceu? — perguntou ela.
Ele olhou para a porta fechada.
— Porque vi uma coisa que não devia.
— A pintura falsa?
— Não. Uma pintura verdadeira.
Beatriz franziu o sobrolho.
Tomás inclinou-se para a frente.
— A Senhora do Arminho Azul existe. A que está apreendida pode até ser autêntica. Mas o problema nunca foi a tela. Foi o que estava escondido na moldura.
Antes que ela pudesse insistir, a porta abriu-se. Entrou Inês Magalhães, procuradora do Ministério Público, elegante, implacável, a mulher que derrotara Beatriz três anos antes no tal processo que a transformara em alvo nacional.
— Vejo que a defesa já está a namoriscar a testemunha — disse Inês.
Beatriz levantou-se devagar.
— E eu vejo que a acusação continua a confundir intimidação com competência.
Tomás levantou as mãos, tentando cortar a tensão.
— Não sou de ninguém.
Inês aproximou-se dele.
— Isso é o que todos dizem antes de venderem a alma ao melhor escritório.
Quando a procuradora saiu, deixou no ar um perfume frio e uma ameaça.
Beatriz recolheu os papéis. Tomás tocou-lhe no pulso, de leve. Ela recuou, instintiva.
— Desculpe — disse ele. — Só queria dizer-lhe que também recebi uma mensagem.
Ela parou.
— Que mensagem?
Tomás tirou o telemóvel do bolso e mostrou-lhe o ecrã: “Ela tem a marca. Tu tens a chave. Se se juntarem, morrem os dois.”
Durante um segundo, o silêncio pareceu inclinar-se sobre eles.
— Que chave? — perguntou Beatriz.
Tomás hesitou.
— O meu pai restaurou a moldura original em 1998. Morreu num incêndio nessa mesma noite. Sempre me disseram que foi acidente. Mas antes de morrer, enviou-me uma fotografia. Só a percebi agora.
Ele mostrou-lhe a imagem ampliada de uma inscrição minúscula na madeira: três iniciais e uma forma curva, idêntica à cicatriz no pescoço de Beatriz.
Ela levou a mão à pele.
— Isto é impossível.
— Talvez — respondeu Tomás. — Ou talvez alguém lhe tenha deixado uma assinatura quando era criança.
Beatriz lembrou-se do cheiro a fumo, de gritos abafados, de uma mão a tapar-lhe a boca. Tinha oito anos quando a mãe morreu num suposto assalto a casa. Sobrevivera com uma ferida no pescoço e uma memória partida.
Tomás guardou o telemóvel.
— Doutora, se eu testemunhar o que sei, eles vão destruir-me. Se a senhora defender Faro, talvez destrua a única hipótese de descobrir quem matou a sua mãe.
Beatriz devia ter-se afastado. Devia ter chamado Afonso, registado a conversa, transformado Tomás numa peça processual.
Em vez disso, perguntou:
— Onde está essa fotografia original?
Tomás olhou-a como se a resposta fosse uma queda.
— Num sítio onde ninguém da sua firma pode entrar.