Quando Beatriz Lemos entrou na Torre Âmbar pela primeira vez, percebeu que os prédios demasiado altos tinham sempre a mesma mentira: prometiam vista, mas escondiam abismos.
A firma Valente & Sottomayor ocupava os últimos quatro pisos, com salas de vidro, secretárias silenciosas e uma regra não escrita: ninguém chorava onde pudesse ser visto. Beatriz, trinta e dois anos, advogada de contencioso, vinha de três anos a reconstruir a carreira depois de ter perdido um processo mediático que lhe colara à pele a fama de “mulher marcada”. A alcunha não nascera apenas da derrota. No lado esquerdo do pescoço, quase junto à clavícula, havia uma cicatriz fina, em forma de meia-lua, que ela cobria com golas altas e colares discretos.
Na manhã da sua contratação, o sócio principal, Afonso Valente, apresentou-lhe o caso que poderia devolvê-la ao topo: a defesa de Dinis Faro, coleccionador de arte acusado de falsificar a autoria de uma pintura desaparecida desde a Segunda Guerra, conhecida como A Senhora do Arminho Azul.
— Não quero uma advogada brilhante — disse Afonso, pousando uma pasta grossa sobre a mesa. — Quero uma advogada que não tenha medo de ser odiada.
Beatriz sorriu sem alegria.
— Então contratou a pessoa certa.
O caso era explosivo. Dinis Faro afirmava ter comprado a obra num leilão privado em Berlim, através de uma galeria discreta. O Ministério Público dizia que a pintura era uma fraude recente e que o coleccionador liderava uma rede de branqueamento através de arte. A opinião pública já o condenara. Havia podcasts, debates nocturnos, comentadores a gritar “veredicto moral” antes de qualquer julgamento.
E havia uma testemunha.
O nome apareceu a meio da pasta, sublinhado a vermelho: Tomás Varela, perito de restauro, antigo consultor da galeria alemã que intermediara a venda.
— Ele desapareceu durante seis meses — explicou Afonso. — Reapareceu agora, disposto a testemunhar contra Faro.
Beatriz folheou os relatórios. Fotografias microscópicas de pigmentos, exames de madeira, notas manuscritas em alemão. Depois, encontrou uma imagem a preto e branco do quadro: uma mulher de vestido escuro segurava um arminho de olhos azuis impossíveis, quase humanos.
Por baixo da reprodução, alguém escrevera à mão: “A tinta não mente. As pessoas sim.”
— Quem escreveu isto? — perguntou Beatriz.
Afonso encolheu os ombros.
— Talvez o perito. Talvez um morto. Neste caso, nunca se sabe.
Nesse instante, o telemóvel de Beatriz vibrou. Uma mensagem de número desconhecido: “Não defenda Faro. Pergunte antes quem assinou a sua cicatriz.”
O sangue fugiu-lhe do rosto.
Afonso reparou.
— Algum problema?
Beatriz bloqueou o ecrã.
— Nenhum. Só acabei de perceber que este processo não começou em Berlim.
E, pela primeira vez em anos, sentiu que a cicatriz ardia.