Inês não dormiu. Voltou à Fundação antes do amanhecer com a desculpa de verificar os danos no arquivo. Duarte esperava-a na entrada de serviço, sem gravata, com duas chávenas de café e olheiras que o tornavam menos director e mais homem.
— Não confio em si — disse ela, aceitando o café.
— Óptimo. Eu também não confio em mim quando estou perto de si.
A frase ficou suspensa entre ambos, inconveniente e real. Inês desviou o olhar primeiro.
No arquivo, compararam fichas, fotografias antigas e relatórios de restauro assinados por Clara. Descobriram que várias obras doadas por famílias arruinadas tinham sido substituídas por cópias perfeitas antes de leilões privados. A Fundação exibia réplicas; os originais desapareciam em colecções fechadas. O Quadro 17 não valia apenas dinheiro: no verso, sob camadas de verniz, podia conter nomes de compradores, datas e pagamentos codificados por Leonor Saldanha, que no século XIX pintara amantes, viúvas e herdeiras enganadas por banqueiros. A “mulher marcada” era um método de denúncia atravessando gerações.
Mas a lista moderna tinha outro autor: Clara.
Entre os documentos, Inês encontrou um envelope escondido dentro de um catálogo oco. Trazia uma pen USB e uma nota: “Se estou morta, foi porque a beleza continua a ser o melhor esconderijo para a ganância.”
Na pen, havia um vídeo gravado no laboratório de restauro. Clara filmava o Quadro 17 sob luz ultravioleta. A mancha vermelha revelava códigos recentes acrescentados por uma mão contemporânea. Depois, a porta do laboratório abria-se. Clara virava a câmara, assustada.
A imagem tremia, mas via-se claramente um anel com pedra verde.
Duarte empalideceu.
— O anel do meu pai.
O pai dele, Augusto Vilar, presidente do grupo e principal mecenas da Fundação, estava há meses recolhido, alegadamente doente. Era dele que Duarte herdara o anel. Ou, pelo menos, era isso que toda a gente pensava.
Antes que pudessem copiar os ficheiros, o alarme de incêndio disparou. As portas corta-fogo fecharam-se. Do corredor veio cheiro a fumo.
— A ameaça não era metáfora — disse Inês.
Duarte agarrou-lhe a mão. Correram por entre estantes, com a água dos sprinklers a cair como chuva suja. Num impulso, Inês parou diante da câmara fria.
— O Quadro 17 não saiu do edifício.
— Como sabe?
— Porque quem o roubou precisava de tempo para o retirar da moldura. E com a polícia cá, só havia um sítio onde ninguém procuraria: dentro de outra obra.
Abriram a reserva de peças contemporâneas. Atrás de uma instalação metálica horrível, encontraram uma tela recém-colada, ainda com cheiro a resina. Duarte puxou a lâmina. Sob a superfície falsa, apareceu a mulher de costas com a nuca marcada.
Nesse momento, a porta abriu-se.
Teresa Montalvão entrou sem a fragilidade do hospital. Trazia uma pistola pequena e o anel de esmeralda no dedo.
— Sempre achei que os arquivistas eram perigosos — disse ela. — Vêem valor no que os outros esquecem.