O inspector Rui Lacerda tinha a calma dos homens que já ouviram mentiras em todos os tons. Interrogou Inês numa sala de reuniões onde os vidros mostravam Lisboa como uma maqueta indiferente.
— Tem a certeza de que era o senhor Duarte Vilar?
Inês olhou para Duarte, sentado do outro lado da mesa. Ele não desviou o olhar. Não havia medo nele, apenas uma espécie de pedido mudo que a irritou.
— Vi o perfil. A altura. O casaco.
— Isso não é uma certeza — disse Duarte.
— Também não é uma coincidência.
O advogado da Fundação tentou transformar Inês numa funcionária nervosa, ressentida por nunca ter sido promovida. Disse que ela passava noites no arquivo, que tinha uma obsessão com Leonor Saldanha, que talvez tivesse inventado símbolos onde só existiam manchas.
Foi então que Teresa Montalvão acordou no hospital e deu o seu depoimento por videochamada. A voz dela saiu fraca, mas precisa:
— Quem me atacou cheirava a resina. E trazia um anel com uma pedra verde.
Todos olharam para Duarte. Na mão direita, ele usava um anel de família com uma esmeralda escura.
Inês sentiu o estômago afundar. A prova encaixava demasiado bem, como uma moldura falsa.
Nessa noite, quando finalmente a deixaram sair, encontrou Duarte no parque subterrâneo, encostado ao seu carro. Devia parecer culpado. Em vez disso, parecia destruído.
— Não fui eu — disse ele.
— Os inocentes costumam começar por explicar, não por declarar.
— A minha irmã morreu há seis meses. Chamava-se Clara. Trabalhava no restauro da Fundação. Disseram que foi acidente: solventes, exaustão, uma queda. Mas ela deixou-me uma mensagem antes de morrer. Só dizia: “Procura a mulher marcada.”
Inês quis ir embora. Não queria que a dor dele tivesse lógica.
Duarte tirou do bolso uma fotografia antiga: Clara Vilar, sorridente, diante do Quadro 17. No canto inferior da imagem, quase escondida, via-se a mesma meia-lua vermelha que agora aparecera no chão da galeria.
— O Quadro 17 desapareceu hoje porque alguém soube que eu o ia mandar analisar fora da Fundação — continuou Duarte. — E alguém tentou pôr a culpa em mim antes que eu encontrasse o que a minha irmã encontrou.
Inês observou a fotografia. Reparou num pormenor que a fez prender a respiração: na nuca pintada da mulher retratada, a mancha vermelha não era apenas uma marca. Ampliada, parecia uma sequência de letras minúsculas.
— Isto não é uma assinatura — disse ela. — É uma lista.
Duarte aproximou-se.
— Uma lista de quê?
No telemóvel de Inês, nesse instante, entrou uma mensagem de número desconhecido: “Se falares, o arquivo arde contigo lá dentro.”